segunda-feira, 7 de agosto de 2017

NOCTURNA


restou meia cerveja quente
e adormecida ao teu lado.
você dormiu sem dizer adeus,
sem tirar as lágrimas do rosto,
que borravam a roupa, maquiagem,
a falsa alegria, a camisa, o decote
cismador, a paisagem abatida dos anos.
o copo ficou - lá - rendido ao teu batom
caro e fracassado, que ninguém sabe
dizer em qual boca a tua letra ficou.

NO PONTO


A espera do ônibus é aquele momento de reparar silêncios;
Calcular as dívidas que a saudade jogou no peito descampado.
Ficamos a observar o sol que atravessa a rua sem olhar para os dois lados da situação.
Uma senhora passa com seu cachorro desfocado
E imaginamos que alguma dor dorme no fundo da sua bolsa
E que ela se deixa levar pela dor que o pobre animal carrega.
Na espera do ônibus os olhos buscam uma palavra infinita pelas intermináveis propagandas.
Correm os olhares diante das vitrines entediadas.
Queremos ir para algum lugar ou voltar para a paisagem segura da casa
Que desde a sirene do despertador nos aguarda.
A multidão que corre nas calçadas deixam rastros,
Confundindo nos com as casas construídas em nosso tempo improvável.
A espera do ônibus é aquele momento no qual descobrimos que nos dobramos de segredos
E que embarcamos com tanto para dizer,
Mas que esquecemos de dizer.
Chegamos ao ponto preocupados porque os vizinhos hão de falar na intimidade das janelas:
"Este aí está a amar".
(VFM)

HAIKAI PARA BASHÔ


Quando amanheceu 
Descobre-se que o sonho ciscou
Em um galo cego.

(VFM)

FOME ANIMAL


o cachorro está desamparado perto do churrasquinho do bar miúdo.
a fumaça o aniquila e o seu rabo merencório varre os passos bêbados,
que, ainda de uniformes surrados do trabalho, trabalham copo a copo.
o cachorro cheira o pé da mesa de sinuca, onde vão rolando
bolas e lágrimas e palavrões e cinzas de inúmeros cigarros.
a música e a TV ligada misturam-se no enrolar das línguas e dissabores.
o cachorro toma um chute malicioso de um torcedor derrotado, jogando-o
para o escanteio da imunda rua. o cachorro lambe a dor enquanto
algumas pulgas ceiam no seu dorso magro. o cachorro coça repetidamente
os seus sonhos no pelo marrom desnutrido para atiçar outros prazeres.
as mesas do bar miúdo vão se enchendo de gente e copos e mentiras e fracassos.
o cachorro se enche de espera e de mais fome. uma cadela encosta com receio
ao lado da triste companhia. senta calada, taciturna, com as tetas inchadas.
há uma solidão os unindo diante da fome.
há homens bêbados. o cachorro vai mastigando a solene noite, que farta de estrelas
vai entontecendo ainda mais os bêbados. a cadela madruga um futuro filhote
na sombra da lua cheia e no escuro cio. o dono do bar miúdo vai empurrando
os clientes bêbados para os seus trapézios. o sono vai fechando portas e olhos e homens.
os bêbados tropeçam em angústias baratas e nas desditas da pesada vida.
o bar e homens adormecem. um menino sujo e esfarrapado e faminto passa,
mas não há mais nada no bar miúdo. o cachorro dá uma mijadinha na porta
para marcar o cenário ao sol feroz e impaciente. a cadela mata a sede
numa poça incógnita e concêntrica. o menino em certo buraco grita chamando
o cachorro e a cadela. eles correm com suas últimas forças.
o cachorro e a cadela latem um poema vazio dentro da noite, na rua, no mundo, dentro do papelão.
não há nome para os bichos. há fome. talvez os bichos se chamem famintos.
(VFM)

QUADRA TEMER ÁRIA


Agosto do desgosto.
Temer absolvido.
Há quem não dá ouvido. 
Brasil tem um encosto.