quarta-feira, 8 de novembro de 2017

QUADRINHA


Ah! Quando você disse pra mim "Chega!"
Eu quis realmente ouvir baixinho.
Queria que fosse algum passarinho
Que solto no meu peito sair se nega.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

DON'T STOP, CARLOS!


Pelos 115 anos de Drummond

stop.
a vida não parou, Carlos.
há gente morrendo parada em leitos múltiplos de hospitais.
o carro parado espera para levar um pobre coitado ao cemitério.
lá há flores e quem sabe alguma paz.
o outro automóvel parado está esperando o sinal abrir,
enquanto dentro dele um figurão fala ao telefone
sobre os seus milhões, mansões, instituições.
sim, Carlos, há milhões nas mãos de poucos e rosas murchas
nas falanges sujas de crianças famintas.
elas oferecem de mesa em mesa os seus desesperos.
sim, Carlos, ficamos parados observando a vida que segue
a 90km/hora sem ser multada.
stop.
o relógio das igrejas não param de tocar e o povo segue moribundo
para ouvir palavras de um livro dado aos negócios.
Carlos, lágrimas não pararam de correr, seguem pelos olhos injustiçados,
talvez seja um cisco do minério da sua terra,
onde se faz dinheiro e montanhas de dinheiro,
cisco que atrapalha o povo a contemplar a poesia.
Carlos, você se foi mas suas palavras andam pelas bocas do mundo.
infelizmente há canalhas que usam erroneamente
seu nome para fazer o povo parar de lutar.
stop.
o automóvel parou na porta do restaurante mais caro da cidade.
o povo perambula atrás de trabalho e dos filhos mortos pela rua.
catástrofes não pararam, Carlos.
a educação, sim, parou há uns dois séculos atrás.
poesia é um perigo, Carlos! dizem que ela constrói vândalos.
tem gente que quer parar o mundo, ou destruí-lo.
o amor, Carlos, segue nos aplicativos e podemos comprar
com dinheiro mais amor e mais likes.
stop.
a alegria anda parada entupindo bueiros,
a desigualdade lavando os carros dos patrões.
Carlos, apesar disso, continuamos a sonhar.
sonhamos carregando culpa, mas sonhamos,
mesmo com homens gradeando nossas paisagens
e gritando com vozes imperiais:
stop!
a vida parou na contramão
ou foi o homem na sua mistificação?
(VFM)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

MAMÃE ME CHAMA


Para Madre

Mamãe me chama, mas fala que ainda tenho que esperar alguns meses para viver essa confusão do mundo. Alimenta-me com prazer lácteo e cuidado próprio, porém sabe que algumas coisas terei que engolir a seco e também saber se arrepender.
Mamãe me chama de amor, benzinho, filhote mesmo no vórtice das cólicas, dos momentos insones e de sensações que lhe causo. Eu respondo chutando o balde porque já quero inaugurar os carinhos de mamãe e poder responder por telefone que estou bem. Estou interessado em olhá-la olho no olho e chorar diante de sua beleza. Quero assim reclamar e entender qual o motivo que tive que esperar tanto tempo.
Mamãe me chama rodeada de gente como num balcão de bar. Não sabe ela que tenho um impasse entre os seus dois seios. Quero chamá-la! Reclamo em lágrimas a conta a pagar.
Mamãe me chama para me ver andar cambaleante e poder virar a paixão de uma fotografia. É dente na manchete que nasce e a antologia do que cai.
Mamãe me chama pela nota baixa aos berros e não quer ouvir as palavras desamparadas que babam da minha boca. Vou alcançando mamãe na vida e entendendo os seus sentimentos e ingredientes.
Mamãe me chama. Tenho que acordar cedo. Pão na mesa e o descobrimento do pânico com o relógio. Mamãe me apresenta o chefe e o trabalho. Mamãe é o lar, o colo, o chinelo, o beijo e a vida. Esqueço a blusa de frio, a chave de casa, o guarda-chuva. Mamãe briga comigo e fala que eu não estou funcionando muito bem.
Mamãe me chama brava porque estou rabiscando nas paredes versos do exílio e me proíbe de estragar o patrimônio que será meu com essa bagunça que sai do coração.
Mamãe me chama para dar conselhos. Xinga sobre os meus inúmeros erros. Mas mamãe também me elogia pelo o que aprendi errando e o que apresento a ela de novo.
Mamãe me chama para se despedir já que decidi morar distante. Mamãe chora protetora e feliz pela tecnologia dos meus atos. Na mala vai o clima cauteloso da liberdade e um perfuminho da saudade. Mamãe chora longe e perto, perto e mais longe no banheiro. Mamãe custa a entender que estamos indelevelmente ligados no mesmo cordão do infinito, independente dos erros e acertos que fazemos na vida.
Mamãe me chama Mamãe me vê grande. Mamãe me vê adulto. Mamãe me vê velho. Eu vejo mamãe como sempre a vi: linda. Lindíssima!
Mamãe me chama. Mamãe me chama. Mamãe me repete. Mamãe se repete. Mamãe sempre há de me chamar. Eu hei de sempre chamar por mamãe, pois mamãe é a diversão de ser minha eterna primeira palavra.
(VFM)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

QUARTA-FEIRA


Enquanto você lê esta carta
Estarei no quarto. Porta fechada.
Cansado de tudo, cheio de nada.
Vejo tua foto ainda, Marta.
Pegue os meus livros e reparta
Aos olhos de quem se diz amada.
Visto minha roupa engomada
De domingo, mas hoje é quarta.
Dentro do envelope há também
O perfume de umas notas de cem,
Que são as minhas economias.
Peguei do pai o velho revólver.
Até logo. Uma bala só requer
Pra acabar com minhas poesias.
Uso sapatos. Fechei a cortina.
Deve ser noite. Não há sol algum.
Só a tua foto me ilumina.
O alarme soa. Marca uma e um.
Prometo não sujar a latrina.
Calma... Não se assuste com o boom.
É só uma lágrima da retina.
(VFM)

Um grito ao Pai


gritávamos pelo pai
para que ele nos visse. pai
só nos via criança
entre leite, mato e cabelo sujo de lua.
dizia antes do nosso
sono demoníaco:
"não vou criar filho vagabundo".
engolíamos à seco
o mandacaru que nutria
nossa porta de entrada na cama.
nunca entendi a vagabundagem
nas cicatrizes dos abraços,
nem ao espalhar os livros
aonde não havia fôlego.
pai gritava com sal na boca
e cinto na mão para amarrar
o meu sonho ao do meu irmão.
o sol na casa úmida estalava
nas roupas adormecidas.
o frio gemia no bocejo das cobertas.
nossas pernas irrequietas
rasgavam as ruas desertas
e o assoalho da casa suportava
o peso serelepe da nossa infância.
algumas vezes também gritei pelo pai
só para desatar os pernilongos
prenhes de noite e sangue
na preguiça da parede rabiscada
de brancos arquipélagos e palavras.
no fundo da casa o latido do cachorro
coloria nossas brincadeiras
e espantava as assombrações
trepadas no muro musgoso.
eu e meu irmão vagabundeávamos
na arborescência dos dias.
plantávamos estripulias no jardim.
deixávamos nossos retratos talhados
na memória, ecoando
pelas saudades do agora.
eu nem sabia que fazíamos poemas
quando gritávamos pelo pai.
a gente queria mesmo era descobrir
paisagens e criar aventuras.
pegávamos os cachimbos fedidos
escondidos e nos fazíamos piratas
para roubar o nosso próprio futuro.
bagunçávamos veemente
as bebidas do bar para tontear
o tempo e nos encher de alegria.
anunciávamos aos amiguinhos
que o pai estava por todos
os lados da casa.
medo e euforia. nervos altos.
era isso com a chegada do pai.
a casa no tecido trabalhador do pai.
pai gritava pulmonar para espantar
brinquedos e poeira e dizer volumes
de inteligências e passados.
tantas histórias embaixo dos anos.
tantas histórias embaixo dos anos.
pai tem momentos que nos vê criança
e acha que não aprendemos a pular tristezas.
não percebe que guardamos dentro
da gente alguns dos seus espelhos
e reflexos importantes da nossa desordem.
por isso, pai, continuamos a gritar
o seu nome. a gritar pelo pai. pai.
(VFM)

Um poema Temeroso


(A moda de Tomás Gonzaga)
Eu, TEMER, fui primeiro 
Deputado. Cansei de ser vice.
Sou interino na malandragem.
Como Jucá muito bem me disse
O acordo, as carnes são nossas,
O tribunal e as notas mais grossas.
Ah! Minha bela Marcela, glória!
Eu paguei a todos se contares
Para me salvar a reputação.
Salve, salve os parlamentares
Porque de tudo nada provo
Eu voltei presidente de novo.
Grava aí Gilmar, meu bom amigo,
Outras mudanças serão enormes.
Sai Janot ingrato com seu pranto.
Veja enquanto o povo dormes
A gente contente dessa sorte
Até que o país chegue a morte.
(VFM)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

NOCTURNA


restou meia cerveja quente
e adormecida ao teu lado.
você dormiu sem dizer adeus,
sem tirar as lágrimas do rosto,
que borravam a roupa, maquiagem,
a falsa alegria, a camisa, o decote
cismador, a paisagem abatida dos anos.
o copo ficou - lá - rendido ao teu batom
caro e fracassado, que ninguém sabe
dizer em qual boca a tua letra ficou.