sexta-feira, 10 de agosto de 2018

HAIKAI


Arrasta-se pela sombra
Claramente Eu. Eu mesmo.
E isso me assombra.

INQUILINO



O amor se hospeda
No quarto de cima.
Não paga aluguel
Há anos. Mas não
Se deve cobrar do
Amor sua infância
Perdida pelos
Cômodos. O que
Se deve pedir
É para parar de
Arrastar as
Recordações
Como uma ferida
No assoalho do peito
E economizar
No banho que dá
Aos apaixonados,
Desperdiçando
Pelos olhos sua
Saída infinita
Para comprar
As frustrações.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

CONTAS


Já não pago mais as contas.
Ah, mãe! Venda o que achar.
Já tô com as malas prontas
Vou embora pra algum bar.

Sei que serei um boêmio
Bem eleito pelo povo,
E se eu vencer de novo
Ganho uma conta de prêmio.

Na vida paga-se tudo,
Nem morrer é de graça.
O médico foi bem rudo,
A dor do tapa não passa.

Tento. Por mais que trabalhe
Tenho que pagar quem devo.
Tento. Por mais que eu fale
Dívidas são o que escrevo.

Nada mesmo afugenta
Os credores, os carteiros.
Sorrir não é ferramenta
Para pagar os primeiros.

Toda conta é tortura,
Grande tristeza extrema.
Conserve, mãe, a fatura
Como último poema.

DIA DO ESCRITOR



O branco ofuscante do papel vazio dormia nas mãos inconfessas. O lápis descia uma oitava para que a frase surgisse três compassos depois. E foi assim que ele se descobria, com olhos e mãos patinhando nas ingrediências da poesia.

terça-feira, 24 de julho de 2018