segunda-feira, 27 de julho de 2015

PARA VÓ BERNA!


quem não morre não acontece.
há saudades por fazer no crediário.
risos para vender às festas santas
por rezas costumeiras e delícias.
somos de sambas, filhos e chão
de barro e curiosidades e zinco.
tenho vícios em flores e lembranças,
em tuas palavras sem troco,
anéis, como casamentos e nudes
de deusas favoráveis aos vazios.
quem não morre não acontece.
k estou eu funcionário de L sem
décimo terceiro e enfeites que
ocupem metade da minha solidão.
há uma cerimônia. eu choro
comendo pipoca como dias e vejo
meu filme o seu filme nosso filme
obscenos, sem guarda-roupas,
e a realidade do mundo no banco
com chiclete, mão boba, sólida,
me fazendo cócegas perpétuas.
quem não morre não acontece.
ai de mim! constantelongamente.
nossas risadas não estouram mais.
hoje faturo o infinito, em poucas notas,
e sei que empurro, distante, triste,
o carrinho que, em nossos pés íngremes,
abertamente, fortalece o sabor do sol.
(VFM)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

MINIDICIONÁRIO DE UM BOCÓ


NOSTALGIA: Não sei o que é, mas aceito ver o replay.
SALÁRIO: o começo do fim do mês.
TRÂNSITO: coletivo de buzina.
OPOSIÇÃO: é um espelho ao contrário.
APLAUSO: mata-moscas do tédio.
CAMISINHA: coleira de um campeão.

(VFM)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

AFLORISMO


Mordomia é saber que invariavelmente sempre vai haver alguém pra carregar seu caixão.
(VFM)

Soluço


A noite é frágil pra quem não
Chega quebrando as garrafas
Que ninguém lamenta.
A noite é frágil se não
Acorda a manhã sem antes
Derramar no chão a sombra
De uma marca barata e sonora.
A manhã sempre soluça na gente.
Ainda bem que o sol, bêbado,
Ressuscita na desesperança.
O homem vive sua previsão
Na ressaca de um bocejo
Trágico, pálido e heroico.

(VFM)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

AUTO-EPITÁFIOS


1
Visto assim de fora, eu preferiria outras flores para viagem e menos protetor solar.
2
Visto assim de dentro, esse povo aí que chora pode buscar pra mim um copo d`água e falar mais alto, pois não escuto com esses algodões as lisonjas.
3
Visto assim...? que alfaiate foi esse que não fechou a sentença da minha braguilha?
4
Visto assim do buraco, paguei os vermes para me comerem em parcelas. Esqueci minha carteira no túmulo ao lado.
5
Visto assim do além, aqui o salário é mais alto pra estagiário no inferno.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

REDUÇÃO



Sou a favor da Redução do medo
que vemos por vezes em todo reflexo do enigma.
Sou a favor da Redução da corrupção,
na qual alguns prosseguem acendendo seus
encargos no prédio da frente com charutos.
Sou a favor da Redução do preconceito 
que pelas ruas transfigura os gestos em centelhas.
Sou a favor da Redução da desigualdade,
este abismo atravessado no corpo e onde não há
persianas, mas tolas palavras para cobrir.
Sou a favor da Redução da guerra
e do seu fim, mas infelizmente há olhos que não
coincidem, veem peixes como pedras 
e são poucas as mãos para jogar.
Sou a favor da Redução da fome,
da erradicação, esse monstro que se debruça 
no sexto andar dos estômagos e grita 
nas bocas esquecidas.
Sou a favor da Redução do abuso de poder,
bicho escancarado nos paletós e com sorriso necrológico.
Sou a favor da Redução do ódio
para que possamos devolver aos pensamentos opacos
uma possibilidade de amor em pedacinhos de ventos.
Sou a favor da Redução do analfabetismo, 
pois quero que todos saibam investigar o alfabeto e
colocar em sonhos anônimos versos impossíveis.
Sou a favor da Redução da morte, 
seja sobre a criança perdida na madrugada magnética,
seja sobre homens e mulheres em suas travessias.
Sou a favor da Redução da injustiça,
vulto que persegue os fracos e que acredita ser o horizonte
a guilhotina e o machado de todos.
Sou a favor da Redução dos idiotas, medíocres, vis,
que carregam em seus ombros da noite o vandalismo, 
o desrespeito, a queimada, o desprezo, o morticínio, 
a mentira e esquecem que vivem sobre o mesmo chão
em que nasce sua sombra e no qual o sol faz grande,
mas também reduz e finda. 

(VFM)

quarta-feira, 1 de julho de 2015