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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Após tanto tempo sem abrir esta sessão. Volto com um capítulo belíssimo que merece ser lido e relido.

CAPÍTULO XXXIV / SOU HOMEM!

Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que,
quando a mãe apontou à porta, ela abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma
contração de acanhamento, um riso espontâneo e claro, que ela explicou por estas palavras alegres:

--Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e fez
isto. Veja que tranças!

--Que tem? acudiu a mãe, transbordando de benevolência . Está muito bem, ninguém dirá que é de
pessoa que não sabe pentear.

--O que, mamãe? Isto? redargüiu Capitu, desfazendo as tranças. Ora, mamãe!
E com um enfadamento gracioso e voluntário que às vezes tinha, pegou do pente e alisou os cabelos
para renovar o penteado. D. Fortunata chamou-lhe tonta, e disse-me que não fizesse caso, não era
nada, maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ela. Depois, parece-me que
desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido à parede, achou talvez que houvera entre nós algo
mais que penteado, e sorriu por dissimulação...

Como eu quisesse falar também para disfarçar o meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro,
e elas acudiram de pronto, mas de atropelo, e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. O beijo
de Capitu fechava-me os lábios. Uma exclamação, um simples artigo, por mais que investissem
com força, não logravam romper de dentro. E todas as palavras recolheram-se ao coração,
murmurando: "Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo, por menos que as emoções o
dominem..."

Assim, apanhados pela mãe, éramos dous e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu
publicava pelo silêncio. D. Fortunata tirou-me daquela hesitação, dizendo que minha mãe me
mandara chamar para a lição de latim; o Padre Cabral estava à minha espera. Era uma saída;
despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe censurava as maneira da filha, mas a
filha não dizia nada.

Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não passei à sala da lição; sentei-me na cama,
recordando o penteado e o resto. Tinha estremeções, tinha uns esquecimentos em que perdia a
consciência de mim e das cousas que me rodeavam, para viver não sei onde nem como. E tornava a
mim, e via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouvia algum som de fora, vago, próximo ou
remoto, e logo perdia tudo para sentir somente os beiços de Capitu Sentia-os estirados, embaixo dos
meus, igualmente esticados para os dela, e unindo-se uns aos outros. De repente, sem querer, sem
pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:

--Sou homem!

Supus que me tivessem ouvido, porque a palavra saiu em voz alta, e corri à porta da alcova. Não
havia ninguém fora. Voltei para dentro, e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o eco
aos meus ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não o teve maior, descobrindo aAmérica, e perdoai a banalidade em favo; do cabimento- com efeito, há em cada adolescente um
mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me
deslumbrou tanto. A denúncia de José Dias alvoroçara-me, a lição do velho coqueiro também, a
vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal deu-me grande abalo, como vistes; nada
disso valeu a sensação do beijo. Podiam ser mentira ou ilusão. Sendo verdade, eram os ossos da
verdade, não eram a carne e o sangue dela. As próprias mãos tocadas, apertadas, como que
fundidas, não podiam dizer tudo.

--Sou homem!

Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminário, mas como se pensa em perigo que
passou, um mal abortado, um pesadelo extinto; todos os meus nervos me disseram que homens não
são padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitu. Talvez abuso um
pouco das reminiscências osculares, mas a saudade é isto mesmo; é o passar e repassar das
memórias antigas Ora, de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta, a mais nova, a mais
compreensiva, a que inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas,
doces também, de vária espécie, muitas intelectuais, igualmente intensas. Grande homem que fosse,
a recordação era menor que esta.



Livro: Dom Casmurro

Autor: Machado de Assis (1839-1908)


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Depois de um tempo sem postar a ínclita série de fragmentos notáveis, volto com um livro que muito me marcou, devido seu caráter obscuro, fúnebre e único. O livro, na verdade, é uma reunião de contos e o autor o primeiro e grande fazedor dos romances policiais. Este ano ele completaria 200 anos se estivesse vivo. Quem nunca leu, faça o favor de conhecer. Imprescindível. Salve o pai do mistério!


"As condições mentais consideradas como analíticas são, em si, pouco suscetíveis de análise. Apreciamo-las somente em seus efeitos. Delas, sabemos que são sempre, entre outras coisas, para os que as possuem em alto grau, uma fonte dos mais vivos prazeres."


Livro: Histórias Extraordinárias
Autor: Edgar Allan Poe
Conto em destaque: Os crimes da rua Morgue

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Olá! Depois de muito lucubrar sobre alvos papéis, pensar em desistir de postar aqui, de escrever alhures, descobri que o importante é não perder a prática. Mesmo que não venha nada, devemos rabiscar cousa qualquer, colocar uma palavra, um verso, uma letra, que, possivelmente, sairá algo depois, ou mesmo ficará perdido. Contudo, você praticou. Isso é que é importante. Sem mais delongas, volto com a série de pedacinhos de livros famosos, que me marcaram e toda a literatura em geral. Este livro é famoso por sua visão psicológica, seu caráter trágico e incestuoso. Quem não leu, leia!

Édipo:

Ora bem! Sê feliz, Creonte! Porque as mandastes vir até aqui, que os deuses te protejam, mais do que a mim! Onde estais vós, minhas filhinhas? Vinde ter comigo... Vinde a estas mãos... fraternas! Foram elas que, como vedes, privaram de luz os olhos, outrora tão brilhantes, de vosso pai! Eu nada via... e nada sabia, minhas filhas; mas eu vos dei a vida no mesmo seio do qual eu próprio havia nascido... E choro por vós, poruqe nunca mais vos verei, e porque penso nas amarguras que tereis de suportar pela vida além...

Livro: Rei Édipo
Autor: Sófocles

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Buenas! Eu aqui de novo com a famosa série dos pedacinhos importantes de alguns livros que me marcaram e toda a literatura seja nacional ou internacional. Este livro de hoje abalou minha estrutura, devido ao seu caráter merencórico e, ao mesmo tempo, encantador. Com seu final trágico, que revolucionou uma época e levou muitos amantes ao destino similiar a da personagem. Outras pessoas que leram não sentiram o baque romântico deste opúsculo, mas comigo foi indelével e por isso merece sem sombra de dúvidas figurar aqui.

"E então, meu amigo? Tenho medo de mim mesmo! Meu amor por ela não é o mais fraternal, o mais santo, o mais puro dos amores? Sentiu minha alma um desejo culpável?... Não quero fazer juramentos! ... E, no entanto, estes sonhos ... Oh! como tem razão os homens que atribuem efeitos contraditórios às forças exteriores! Esta noite ... Estremeço ao dizer que a tive nos meus braços, apertada contra o peito, cobrindo-lhe de beijos sem conta a boca que balbuciava palavras de amor, meus olhos inundados pela embriaguez do seu olhar! õ Deus, serei porventura culpado de experimentar ainda tanta felicidade ao recordar, em toda a sua intensidade, essas ardentes delícias?
Carlota, Carlota!. . ."

Livro: Os sofrimentos do jovem Werther
Autor: Johann Wolfgang von Goethe

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Opa! Sumi um pouquinho, mas é porque estou sem net em casa. Volto, então, com alguns fragmentos de livros que me marcaram e devem constar na biblioteca de todos, eu indico! Já postei anteriormente um trecho desse mesmo autor e reitero com outro livro tão memorável quanto. Pra mim, sinceramente, gosto mais desse. Muita intriga, tensão, ótimas falas, que te prende do início ao fim. Leiam!


OTELO - Tanto contentamento quanto espanto me causa ver que antes de mim chegastes. Ó alegria de minha alma! Caso viesse sempre depois da tempestade semelhante bonança, poderiam soprar os ventos de acordar a morte. Que o meu barquinho escale montes de água tão altos quanto o Olimpo e, após, afunde tanto quanto distar do céu o inferno. A morte, agora, para mim seria uma felicidade, pois tão grande é a ventura que da alma se me apossa, que não pode, receio-o, reservar-me outra igual o futuro nebuloso.


Livro: Otelo, o mouro de Veneza

Autor: William Shakespeare

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Depois de uma sumida, ida , ida, ida para algum lugar, ou sem lugar, chego com a mais famosa série deste blog. Confesso que ultimamente a verve anda me abandonando, creio que a perdi num bar. Estou atrás dela. Dureza da natureza. O fragmento de hoje é de um livro que me cativou pela forma audaciosa e, principalmente, erótica do texto. A história dos mancebos baianos.

"O menino era uma tentação por demais grande. Nem parcia um meio-dia de inverno. O sol deixava cair sobre as ruas uma claridade macia, que não queimava, mas cujo calor acariciava como a mão de uma mulher. No jardim próximo as flores desabrochavam em cores. Margaridas e onze-horas, rosas e cravos, dálias e violetas. Parecia haver na rua um perfume bom, muito sutil, que Pirulito sentia entrar nas suas narinas e como que embriagá-lo."

Livro: Capitães de Areia

Autor: Jorge Amado

terça-feira, 30 de junho de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Em cena, hoje, um romance um tanto quanto metafísico, um tanto quanto hilário, um tanto quanto excelente! Conheci a obra desta autora por meio deste livro e logo depois quis ler outras obras dela. Muito me encantou. Com suas análises de mundo e suas percepções psicológicas da vida, suas histórias fazem você pensar. Eu aconselho a saga de Macabéia!

"Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-se 'panos', diziam que vinham do fígado. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era melhor que o pardacento. Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia como avisar-lhe que seu cheiro era murrinhento. E como não sabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofendê-la. Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala. Mas não importava. Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio."

Livro: A Hora da Estrela
Autora: Clarice Lispector

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Opa! Depois dum tempo ausente, devido ao feriado, volto com a afamada série dos insignes trechos da literatura mundial. Regresso com um famoso pedaço teatral, que muito me marcou, creio que outras pessoas também. A parte se encontra no Ato III, Cena I e é vista com um fundo metafísico agudo. Vale a leitura!

Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta
–Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.

Livro: Hamlet

Autor: William Shakespeare

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Olá Marujos! Para esta semana, volto com a série de panegírico a Literatura. Para quem aprecia, fique a vontade, o blog também é seu. Aos amantes de textos notáveis, este pedacinho que postarei hoje é de um livro muito interessante. Creio que muitos já devam ter começado a lê-lo, mas desistiram no meio durante o percurso linguístico. Tudo bem! Às vezes acontece isso, entretanto, vale a pena terminar o que se começa, principalmente esta obra-prima. Eu indico a leitura da saga da família Buendía.


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos."


Livro: Cem Anos de Solidão

Autor: Gabriel García Márquez

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Opa, opa! Não posso deixar de fazer barulho para esta série. Aos amásios de plantão da Literatura, o post de hoje trago um trecho de outro livro que me emocionou, tanto pela simplicidade, finura (pouco mais de 120 páginas), mas com uma história sublime, única. Ou seja, não precisa escrever demais para montar um ótimo livro. Leiam!

"A linha começou a erguer-se lenta e cautelosamente, e pouco depois a superfície do oceano agitou-se à proa do barco e o peixe apareceu. Apareceu à tona d'água e parecia nunca acabar. A água deslizava-lhe mansamente pelo enorme dorso. Brilhou à luz do sol. A cabeça e o dorso eram purpúreos e as barbatanas abriram-se, imensas, cor de violeta pálida. Tinha a espádua mais comprida do que um "bat" de beisbol, rematada com um estouque, e saiu da água completamente, tornando depois a mergulhar, suavemente, como um mergulhador. O velho viu a cauda em forma de foice desaparecer e começou a dar-lhe linha."

Livro: O Velho e o Mar

Autor: Ernest Hemingway

domingo, 3 de maio de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Buenas! Aproveitando o fim do feriado, coloco no ar a série de textos gloriosos da Literatura. Os anteriores divulguei a prosa, mas neste de hoje, após pensar demoradamente num poema, escolha difícil em selecionar o primeiro, consegui elencar um que muito me encanta. Cogitei postar, talvez, em ordem cronológica, mas a ordem não supera a qualidade dos poetas. Começar com Hesíodo? Anacreonte? Píndaro? Horácio? Ovídio? Homero? Petrarca? Dante? Camões? Vamos aos poucos. Todos terão seu nome aqui, com muita honra. Enfim, o poema escolhido é de um autor que muito aprecio também, Lord Byron, principalmente por seu teor romântico.

Tu me chamas

Em momentos de delícia,
Extática, embevecida,
Numa voz, toda carícia,
Tu me chamas: "Minha vida!"

Sentira, à frase tão doce,
Exultar-me o coração,
Se a nossa existência fosse
De perpétua duração.

Levam-nos esses momentos
Ao fim comum dos mortais.
Ou não saiam tais acentos
Dos lábios teus nunca mais,

Ou, mudando a frase terna,
"Minha alma", podes dizer.
Pois a alma não morre; eterna
Qual meu amor, há de ser.

Autor: Lord Byron - George Gordon Byron, 6º Barão Byron (1788-1824)

domingo, 26 de abril de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis


Para não perder o costume, cá estou eu de novo apresentando um pedacinho do bom e do melhor da Literatura mundial. Este fragmento de hoje é, fique registrado, um dos que mais aprecio, vanglorio e ovaciono. É um dos melhores livros que já li. Com vocês Miguel de Cervantes com o glorioso Dom Quixote.



Desocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar. Mas não pude eu contravir a ordem da natureza, que nela cada coisa engendra seu semelhante. E, assim, o que poderá engendrar o estéril e mal cultivado engenho meu, senão a história de um filho seco, murcho, antojadiço e cheio de pensamentos díspares e nunca imaginados por ninguém mais, exatamente como quem foi engendrado num cárcere, onde toda a incomodidade tem assento e onde todo o triste barulho faz sua habitação?



Livro: Dom Quixote

Autor: Miguel de Cervantes (1547-1616)

sábado, 18 de abril de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Como de praxe deste blog, eis uma das séries que semanalmente estabeleci postar para os apreciadores da boa Literatura.


AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Livro: Brás Cubas

Autor: Machado de Assis (1839-1908)

domingo, 12 de abril de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Olá, caríssimos! Volto aqui com a série de trechos e poesias que ficaram indeléveis na Literatura Mundial.

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.


Livro: Lolita
Autor: Vladimir Nabokov (1899-1977)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Da Série: Fragmentos e Poemas Memoráveis

Começo o post de hoje com a pretensão de colocar, pouco a pouco, um compêndio de frases, ditos, adágios, fragmentos, poemas etc. insignes e afamados que valem à pena ler, serem guardados e torná-los, ainda mais, inolvidáveis. Espero que gostem e acompanhem. É isso!


"Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados. Quando se ouviu a detonação, uns cinco minutos depois de a menina ter abandonado a mesa, o pai não se levantou de imediato, mas ficou alguns segundos paralisado com a boca cheia, sem se atrever a mastigar nem a engolir nem, menos ainda, a devolver o bocado ao prato; quando por fim se levantou e correu para o banheiro, os que o seguiram viram como, enquanto descobria o corpo ensangüentado da filha e levava as mãos à cabeça, ia passando o bocado de carne de um lado ao outro da boca, sem saber ainda o que fazer com ele".

Livro: “Coração tão branco”
Autor: Javier Marías.