Os pés têm vocação para fazer saudade. Mesmo juntos
dialogam expansivos. Lado a lado marcam sua voz. Questionam sob o domínio da razão. Cosmificão aquela posição dramática. Unem-se naquele
incômodo aspecto. Talvez se entendam. Montam banca. Estrutura poética.
Param juntinhos. Descansam também separados. "PRONDE VAMOS?", dizem
unificando o discurso. Aparentemente duvidam do caminho. O medo que vem
defronte. Estampam no solado o fragmento do início e o destinatário da
sa
ída. Ou volta a volta a volta. Quiçá a
nunca ida. Os pés vizinhos. Os pés irmãos. Os pés demarcando
fronteiras. Um quer ser a terceira pessoa da narração, outro o
aparecimento do eu. Mas contraditoriamente não se separam. Como
locutores de situações extremas seguem vistos pela sociedade Unidos. A
preocupação de quem vê é a eficácia de deixar eles assim: perdidos.
Personificados. Batendo o pé. Juntos!
Ahhhhhh! Mas quando brigam... pisoteiam a verdade e na ponta do pé
botam calçado nas mentiras. Mas quão fácil é identificar a busca passo a
passo um pelo outro. Um limpa no tapete o livro mal aproveitado. Outro
sucessivamente na frequência do espelho renega seus cacos. Metemos o pé
na jaca, o pé na porta, troca as mãos pelos pés e pé na tábua. Que pé
que não briga com outro? Querem sentir saudade. Afastam-se na necessária
extensão da distância. E se há distância medimos o tamanho do quarto. O
espaço para caber a cama. Separam-se para se conhecer. Ajudam um ao
outro na prevenção dos abismos. Vão pulando os erros homologados. Um
quer fazer do outro a vida mais lenta. Quem não quer uma pausa para dar
importância a música? Quem não quer fazer o erótico a fuga e a chamada
do prender-se?
Os pés têm relação estabelecida. Os pés têm
erros. Esse texto tem erros. Os passos se erram. Somos errantes muitas
vezes. É a natureza do duplo. A outridade simétrica da sombra. Quando um
vai o outro se transporta. Vamos atrás desse diálogo especular. Vamos,
pois, além dos pés. Uma briga que nos move. Uma caminhada da
aprendizagem. Vamos na perspectiva do incrível momento da chegada. Do
parar lado a lado e dizer a cada pé, e na interseção a qual
consideramos, que conseguimos vencer o inimigo do passado. Ficou pra
trás a evidência do antes. No entanto, podemos dar um passo atrás para
recuperar melhor o personagem. Deve-se assim sempre dar um passo à
frente para o irresistível desejo de andar mais para frente para
conquistar sempre. E mesmo os pés parados, é uma indicação de que a
saudade é uma eternidade imaginária. Os pés juntos descansam na morte.
Os pés sabem fazer pausas na vida para particularmente demarcarem a sua
história. Por isso sao pés. Por isso fazem parte de nós. Assim a pé
vamos!