sexta-feira, 14 de julho de 2017

EXTRUSÃO


Eu, expulso do que me é eterno,
Ciente que tudo me abandona,
Eu, morto, exangue, na morta cona, 
Subsisto em carne no inferno.
Cheguei a esta minha vida cruel
Passageiro do câncer e do pranto,
Vômito acre dentro de um antro,
Abençoado por nascer e ser réu.
Não desespero por nada afinal
Se eu tombei alma em pia batismal
No ventre espúrio, todo roto.
Vendido corpo-podre na usura
Masturbei-me na boca mais impura
Minha sombra de cuspe e esgoto.

(VFM)

CORPO A CORPO


derruba teu corpo amargo
aonde o meu se perde.
o caminho é cinzento
e o orvalho um campo largo.
agarra-me dos pés à cabeça,
antes que a memória
fique muda
e nossa sombra desapareça.

OSSO


A minha treva, meu esqueleto
São de poesia e de cianureto.
E os meus falsos olhos
Dois poços de petróleo.
A máscara que me encobre,
Fantasia pútrida de cobre,
Prenhe de ódio e a míngua
É um uivo de flor na língua.
Tudo que sei: o cio que ouço,
é escória presa no calabouço.
A minha sombra é amarga
E a solidão é a minha carga
A roer de saudade meu osso.
(VFM)

LÁ VAI A REFORMA


Foi no apagar das luzes
Que o trabalhador perdeu.
Senadores com capuzes
Dizendo: " Bem feito, se fodeu".
Temer do seu gabinete,
Presidente fictício,
Queimava com a CLT
Acusações e indícios.
"Hora da comemoração!
Já dei fim na Lava-Jato.
Aberta a exploração!
Pobres! Lambam meu sapato!"
"O povo é patético.
Eu mando soltar doleiro
E me faço de ético.
Adeus décimo terceiro!"
"Chega de manifestação",
Pensava o interino.
"Já cumpri a minha missão,
Roubar é meu destino ".
"Não reclame mais, trabalhe!
Marcela agora quer paz.
Não quer que pobre se espalhe,
Falando mal do Satanás".
Passa a reforma passa.
Trabalhista de começo.
No lombo do povo assa
O tronco do retrocesso.
"Ah, chega de privilégio.
A merda os seus direitos.
Comunista é sacrilégio
No chicote eu endireito".
"Só em 2018
Para me pegar no flagra.
Está na hora do coito.
Toma Brasil! Haja viagra!".
(VFM)

Poeminha (in)justamente para o trabalhador


A causa mais justa
O patrão te conta:
O chicote se ajusta
De ponta a ponta.
Cada "ai", sim, custa
Ao nosso erário
E a gente desconta
No seu saldo bancário.
Viva a reforma!
Canta ordinário
E se conforma.
(VFM)

DESPOVOAR


Vamos despovoar os livros
Já que as palavras
Dão pulmões aos manifestos.
Vamos despovoar as despedidas
Já que as esperas são iguais
Nas terríveis ausências.
Vamos despovoar os homens
E deixar livre o coração terrível
Gritando os nomes do esquecimento.
Vamos despovoar os ridículos.
Deixemos vagar as lembranças
Com seu oxigênio fecundo.
Vamos despovoar a força da tristeza.
Desenvolta é a doçura dos beijos
Impressos na adrenalina.
Vamos despovoar os corruptos
E colocar uma nova geografia
Da vida que nos invade.
(VFM)

OS MARINHEIROS


Viajam os marinheiros
Sol adentro, sofrendo,
Ao mar tumultuado
Pelas flores do vento.
Nuvens serpenteiam
Arando o azul dos ares.
Nos braços - estrelas -
Em noites singulares.
O barco, lá vai, soçobra.
Longe o silêncio afronta
Os peixes pelo caminho
Dos marinheiros à sombra.
Sem tempo de regresso,
No comércio, os corpos,
São sonhos sem preço,
Onde navegam mortos.
(VFM)