Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. O serviço estava concluído. Anteriormente, ela esperava a ligação do cliente, ajustava o vestido negro acetinado, o qual modelava sua silhueta de dunas agreste, com curvas acentuadas e íngremes. O cabelo um pouco em desalinho, o batom cintilante na boca, como uma madura fruta silvestre, e o perfume acre, completavam a produção noturna e galante. 20 horas.
O telefone tocou. Era ele. Aguardava-a no seu apart hotel, ansiosamente. Ela se olha, novamente, no espelho. Puxa o vestido mais para baixo, para realçar os seus seios pontiagudos. Toma duas doses de uísque. Lá embaixo o táxi a espera. Confere a bolsa antes de sair. Tudo estava preparado.
Dentro do veículo ela conjeturava sobre os outros atendimentos. Iniciou este ofício havia uns três meses. Tudo por desilusão, sanha e vingança, que com os uísques diários dava uma agridoce satisfação. O motorista, impassível, ouvia as últimas notícias: “A população está alarmada com os trágicos acontecimentos. De acordo com o delegado de polícia, xxxx, todo o contingente policial se encontra espalhado pela cidade. A busca não vai parar...” Ela mal dava ouvidos às desatinadas informações vociferadas pelo radialista. Pelo retrovisor, de soslaio, o taxista jogava um olhar de cobiça. A calcinha branca dela piscava para ele a cada mexida audaciosa das pernas.
Chegou ao local. Pagou e saiu sem dizer nada, lutuosa. Disse ao recepcionista o número do quarto. Subiu no elevador com um senhor senil, bem trajado, jornal a tira colo. A manchete era a mesma anunciada pela rádio. Oitavo andar. Saltou. Quarto 802. A porta estava semicerrada. Entrou e trancou. 21 horas.
O sujeito, calvo e esguio, de roupão bege, ao confrontá-la, oferecia em uma das mãos um copo com o âmbar etílico. Beberam. Ela, solícita, preparava todos os drinques, e se demorava. Esboçava uma alegria entre dentes, forçada. Fazia charme para que ele se embriagasse o mais rápido possível. Quando percebeu a fala pastosa do seu cliente avançou. Beijaram-se. Ele numa sofreguidão desértica. Minutos depois, a cama tinha o aspecto amarfanhado. Lençóis suados. O sujeito plenamente ébrio. Ela se deixava fazer de tudo, numa falaz atitude de prazer. Gozo, solitário. Mais uma dose e um cigarro. O sujeito, esfaimado, dormia profundamente. 00 hora.
Então, pegou o dinheiro na cômoda, olhou para o cliente prostrado, nu, lívido como uma vela. Sorriu satisfeita. Naquele instante ela se deixou gozar. Limpou tudo. Pensava num próximo cliente. Assim, fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.
No outro dia os jornais anunciavam: “Encontrado morto mais uma vítima da dama da meia-noite. O corpo aparentava como o das outras vítimas, ingestão de grande quantidade de barbitúrico e prussiato. É o décimo quarto cliente a ter seu último dia de prazer. A polícia não tem notícias da assassina. Quem tiver alguma informação, entrar em contato pelo telefone 190...”.
(VFM)