sexta-feira, 29 de maio de 2009

Destino

Insinuei-me as senis Parcas de como teceriam o fio do meu destino, pois gostaria somente gozar a felicidade. Bramindo a tesoura, cajado negro, na mão, cumpriam a promessa de entregar-me a Hades. Ostentando o horror nas faces do desatino, descobri que o regojizo independe da paixão.

Quis, eu, aliciá-las para que cuidassem do meu fio proscrito, embora, assim, acabarei com qualquer dúvida que o sorriso e o meu sangue túmidos de juventude se esvaiam nos meus erros; talvez por cortes menores, cisões do tempo, levando até meu verdadeiro fim. De nada adiantou. Pouco misericordiosas, elas, senhoras das horas, em uníssono, ceifaram o rubor da minha vida. A dor! Nada mais pude contra o corte rude das três Parcas, que me tiraram três essencias primordiais: o Amor, Felicidade e o Perdão.


(VFM)


Obs: texto achado num monturo de papéis anos guardados, ou possivelmente escondidos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Etimologia

Olá Caríssimos! Para não perder o costume, novamente posto as hilárias histórias "genealógicas" das palavras. Para os sôfregos dos mistérios dos termos, o Márcio Bueno conta e perscruta a etimologia do nosso vernáculo. Degustem!

Tesão: Alguns dos sentidos são "excitação, desejo sexual; estado do pênis em ereção; pessoa que desperta desejos seuxuais". Assim como "tensão", o termo deriva, por via popular, do latim "tensio", "-onis", do verbo "tendere" (esticar, retesar, distender). Tesão era uma palavra usada correntemente, inclusive na literatura, com o sentido de "força, intensidade; manifestação de violência". Mas, à medida que passou a ser utilizada popularmente com os sentidos relacionados com sexo, foi desaparecendo da linguagem culta, como ocorreu com outros vocábulos de história semelhante.

Testículo: Glândula sexual masculina, ou gônada masculina. Em latim, testículo era chamado de "testis" e, a partir do primeiro século da era cristã, pelo seu diminutivo, "testiculus". Essa mudança ocorreu no latim vulgar, que passou a adar preferência aos sufixos diminutivos. O mais curioso é que "testis" significava "testemunha". Ou seja, os romanos chamavam as gônadas masculinas de tal e posteriormente de "pequenas testemunhas". Devem estar se perguntando por quê, né?! Os testículos eram assim denominados por serem "testemunhas da virilidade", por conseguinte, não tomavam parte ativa no ato sexual, apenas testemunham.


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dédalo

A frase escolhida faz parte do livro "Romanceiro da Inconfidência" escrito pela poetisa Cecília Meireles: Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto.


“Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto...” Foram as únicas palavras que o nobre Aedo conseguiu escrever. Já madurava por um período secular o desafio, frente aos seus pensamentos. Já tinha ouvido outras histórias sobre o hiato desta vasta construção, formada com dedicação e esmero. “Sê Intrépido”, dizia no portal das suas ideias. Tinha bons motivos para honrar sua competência, pois as escassas palavras se destinavam ao seu maior amor.

A resposta não tardou em chegar, veio em velas brancas, na fronha do mar. “Há de lograr todo o êxito e glória e se notabilizará por seus feitos para a história, amor meu!”. A missiva carregava os olores de uma primavera e a lágrima, como um beijo, pontuava o final do texto.

Não havia escapatória. Imaginava o duelo a se travar, a faina que o aguardava. Zéfiro ciciava em seus ouvidos. Todos os olhos politeístas estavam dedicados a ele. Não hesitou. Muito vagou, entre Cilas e Caríbdis. Sonhava se eternizar assim como outros heróis e poetas de sua pátria. Chegou ao seu destino.

Eis que vislumbra a pugna. Sua amada o aguardava para auxiliá-lo. O medo afagou seu corpo por três vezes. Caminhou em direção as aleias poéticas, arrastando seu enorme escudo da inspiração. Osculou sua musa e partiu. A sorte se esvaia a cada passo. Durou horas perdido. Foi quando o que menos esperava aconteceu. Lá estava a sombra bafejando o seu semblante. Descomunal. Atro. O Minotauro veio, célere, enfurecido, para matá-lo com um só golpe. Errou. Como um toureiro, esmagou o crânio da besta e este beijou o chão e bebeu do seu sangue. O herói estava formado. Voltou através da linha do amor, júbilo. Saiu esbaforido. Foi beijado incessantemente. Venceu seu maior medo.

Regressou a sua terra com as palavras de Ariadne vociferadas no ar: “Venceu. Venceu. Venceu, este é o herói Teseu.”


(VFM)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Olá Marujos! Para esta semana, volto com a série de panegírico a Literatura. Para quem aprecia, fique a vontade, o blog também é seu. Aos amantes de textos notáveis, este pedacinho que postarei hoje é de um livro muito interessante. Creio que muitos já devam ter começado a lê-lo, mas desistiram no meio durante o percurso linguístico. Tudo bem! Às vezes acontece isso, entretanto, vale a pena terminar o que se começa, principalmente esta obra-prima. Eu indico a leitura da saga da família Buendía.


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos."


Livro: Cem Anos de Solidão

Autor: Gabriel García Márquez

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Iemanjá

A noite estava crespa,
Com raiva da pálida manhã.
A lua, como um farol, traiçoava
Os passos das sombras distantes,
Olhos pousados na goela de um lobo
E o bafo do vento rasgava-lhe o rosto.

Eis que se avista Ela, tristonha,
Flutuando em sua fronha,
Preenchendo de lágrimas
As vagas sanhudas do mar.
Era Iemanjá tentando suicidar.
Então, uma estrela se arrepiou...
Cadente, e, junto da lua, chorou.

Volte para o mar Iemanjá!
Volte para o mar Iemanjá!


(VFM)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Dama da meia-noite

Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. O serviço estava concluído. Anteriormente, ela esperava a ligação do cliente, ajustava o vestido negro acetinado, o qual modelava sua silhueta de dunas agreste, com curvas acentuadas e íngremes. O cabelo um pouco em desalinho, o batom cintilante na boca, como uma madura fruta silvestre, e o perfume acre, completavam a produção noturna e galante. 20 horas.

O telefone tocou. Era ele. Aguardava-a no seu apart hotel, ansiosamente. Ela se olha, novamente, no espelho. Puxa o vestido mais para baixo, para realçar os seus seios pontiagudos. Toma duas doses de uísque. Lá embaixo o táxi a espera. Confere a bolsa antes de sair. Tudo estava preparado.

Dentro do veículo ela conjeturava sobre os outros atendimentos. Iniciou este ofício havia uns três meses. Tudo por desilusão, sanha e vingança, que com os uísques diários dava uma agridoce satisfação. O motorista, impassível, ouvia as últimas notícias: “A população está alarmada com os trágicos acontecimentos. De acordo com o delegado de polícia, xxxx, todo o contingente policial se encontra espalhado pela cidade. A busca não vai parar...” Ela mal dava ouvidos às desatinadas informações vociferadas pelo radialista. Pelo retrovisor, de soslaio, o taxista jogava um olhar de cobiça. A calcinha branca dela piscava para ele a cada mexida audaciosa das pernas.

Chegou ao local. Pagou e saiu sem dizer nada, lutuosa. Disse ao recepcionista o número do quarto. Subiu no elevador com um senhor senil, bem trajado, jornal a tira colo. A manchete era a mesma anunciada pela rádio. Oitavo andar. Saltou. Quarto 802. A porta estava semicerrada. Entrou e trancou. 21 horas.

O sujeito, calvo e esguio, de roupão bege, ao confrontá-la, oferecia em uma das mãos um copo com o âmbar etílico. Beberam. Ela, solícita, preparava todos os drinques, e se demorava. Esboçava uma alegria entre dentes, forçada. Fazia charme para que ele se embriagasse o mais rápido possível. Quando percebeu a fala pastosa do seu cliente avançou. Beijaram-se. Ele numa sofreguidão desértica. Minutos depois, a cama tinha o aspecto amarfanhado. Lençóis suados. O sujeito plenamente ébrio. Ela se deixava fazer de tudo, numa falaz atitude de prazer. Gozo, solitário. Mais uma dose e um cigarro. O sujeito, esfaimado, dormia profundamente. 00 hora.

Então, pegou o dinheiro na cômoda, olhou para o cliente prostrado, nu, lívido como uma vela. Sorriu satisfeita. Naquele instante ela se deixou gozar. Limpou tudo. Pensava num próximo cliente. Assim, fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.

No outro dia os jornais anunciavam: “Encontrado morto mais uma vítima da dama da meia-noite. O corpo aparentava como o das outras vítimas, ingestão de grande quantidade de barbitúrico e prussiato. É o décimo quarto cliente a ter seu último dia de prazer. A polícia não tem notícias da assassina. Quem tiver alguma informação, entrar em contato pelo telefone 190...”.


(VFM)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sofisma

O mundo, com sua problemática,
Exprime-se em desdobramentos,
Na essência do amor e de intentos,
Meditações duma escolha errática.

Além, vasto, complexo e frágil,
Homem e Natureza - uma cisão!
O montante é de sorte e ágil,
Que do seu trabalho e tensão,

Permite a todo papel de tolo,
Que inventa a ideia de sorte,
(isto é inegável) um dolo
Medido somente pela morte.

O mundo postula o tal do amor.
A sociedade, dada por vária fase,
Constrói-se muito: de dor em dor
E a vida assim se resume, ou quase.


(VFM)



Obs: texto achado num papel rasgado, amassado e um tanto quanto ilegível