quarta-feira, 20 de maio de 2009

Iemanjá

A noite estava crespa,
Com raiva da pálida manhã.
A lua, como um farol, traiçoava
Os passos das sombras distantes,
Olhos pousados na goela de um lobo
E o bafo do vento rasgava-lhe o rosto.

Eis que se avista Ela, tristonha,
Flutuando em sua fronha,
Preenchendo de lágrimas
As vagas sanhudas do mar.
Era Iemanjá tentando suicidar.
Então, uma estrela se arrepiou...
Cadente, e, junto da lua, chorou.

Volte para o mar Iemanjá!
Volte para o mar Iemanjá!


(VFM)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Dama da meia-noite

Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. O serviço estava concluído. Anteriormente, ela esperava a ligação do cliente, ajustava o vestido negro acetinado, o qual modelava sua silhueta de dunas agreste, com curvas acentuadas e íngremes. O cabelo um pouco em desalinho, o batom cintilante na boca, como uma madura fruta silvestre, e o perfume acre, completavam a produção noturna e galante. 20 horas.

O telefone tocou. Era ele. Aguardava-a no seu apart hotel, ansiosamente. Ela se olha, novamente, no espelho. Puxa o vestido mais para baixo, para realçar os seus seios pontiagudos. Toma duas doses de uísque. Lá embaixo o táxi a espera. Confere a bolsa antes de sair. Tudo estava preparado.

Dentro do veículo ela conjeturava sobre os outros atendimentos. Iniciou este ofício havia uns três meses. Tudo por desilusão, sanha e vingança, que com os uísques diários dava uma agridoce satisfação. O motorista, impassível, ouvia as últimas notícias: “A população está alarmada com os trágicos acontecimentos. De acordo com o delegado de polícia, xxxx, todo o contingente policial se encontra espalhado pela cidade. A busca não vai parar...” Ela mal dava ouvidos às desatinadas informações vociferadas pelo radialista. Pelo retrovisor, de soslaio, o taxista jogava um olhar de cobiça. A calcinha branca dela piscava para ele a cada mexida audaciosa das pernas.

Chegou ao local. Pagou e saiu sem dizer nada, lutuosa. Disse ao recepcionista o número do quarto. Subiu no elevador com um senhor senil, bem trajado, jornal a tira colo. A manchete era a mesma anunciada pela rádio. Oitavo andar. Saltou. Quarto 802. A porta estava semicerrada. Entrou e trancou. 21 horas.

O sujeito, calvo e esguio, de roupão bege, ao confrontá-la, oferecia em uma das mãos um copo com o âmbar etílico. Beberam. Ela, solícita, preparava todos os drinques, e se demorava. Esboçava uma alegria entre dentes, forçada. Fazia charme para que ele se embriagasse o mais rápido possível. Quando percebeu a fala pastosa do seu cliente avançou. Beijaram-se. Ele numa sofreguidão desértica. Minutos depois, a cama tinha o aspecto amarfanhado. Lençóis suados. O sujeito plenamente ébrio. Ela se deixava fazer de tudo, numa falaz atitude de prazer. Gozo, solitário. Mais uma dose e um cigarro. O sujeito, esfaimado, dormia profundamente. 00 hora.

Então, pegou o dinheiro na cômoda, olhou para o cliente prostrado, nu, lívido como uma vela. Sorriu satisfeita. Naquele instante ela se deixou gozar. Limpou tudo. Pensava num próximo cliente. Assim, fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.

No outro dia os jornais anunciavam: “Encontrado morto mais uma vítima da dama da meia-noite. O corpo aparentava como o das outras vítimas, ingestão de grande quantidade de barbitúrico e prussiato. É o décimo quarto cliente a ter seu último dia de prazer. A polícia não tem notícias da assassina. Quem tiver alguma informação, entrar em contato pelo telefone 190...”.


(VFM)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sofisma

O mundo, com sua problemática,
Exprime-se em desdobramentos,
Na essência do amor e de intentos,
Meditações duma escolha errática.

Além, vasto, complexo e frágil,
Homem e Natureza - uma cisão!
O montante é de sorte e ágil,
Que do seu trabalho e tensão,

Permite a todo papel de tolo,
Que inventa a ideia de sorte,
(isto é inegável) um dolo
Medido somente pela morte.

O mundo postula o tal do amor.
A sociedade, dada por vária fase,
Constrói-se muito: de dor em dor
E a vida assim se resume, ou quase.


(VFM)



Obs: texto achado num papel rasgado, amassado e um tanto quanto ilegível

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Poema de Aniversário

Vocês devem estar pensando que hoje é o meu Niver, mas não é não! Sou pisciano e nasci no dia 26 de fevereiro (Não se esqueçam!). Apesar disso, gostaria de postar, no dia de hoje, este poema para os meus amigos(as) aniversariantes deste mês, que muito considero. O poema vai para a Cris-Osvaldo(rs), Germinho, Anãozinho, Joyce e Mateusão! Espero que vocês gostem da homenagem.


POEMA DE ANIVERSÁRIO


Ora, ora, Hora, Hora!

Hoje é o dia: Comemora!

Não existe adversário,

E juntando o abecedário,

Tá escrito no calendário:

Hoje é seu aniversário!

Mais um tempo, um ano,

Momento de novo plano,

Momento revolucionário!

Tudo é seu, é prioritário.

Nas palavras do dicionário,

Dentro do seu vocabulário,

Tenha um olhar visionário:

Sonhe! Ao que é embrionário

Se pode virar extraordinário!

As dúvidas no questionário

Da vida são para ti calvário?

Faça delas mais um ideário,

Instrumento de força diário

Para vencer, sem horário.

Tudo é seu, sê temerário.

Você merece muito e vário,

Pois hoje é seu ANIVERSÁRIO!



(VFM)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Etimologia

Buenas! De volta e com a língua solta, chego para afogar a curiosidade dos famélicos leitores e ávidos por conhecimento. Mais uma vez o Márcio Bueno me contou no seu livro a estirpe curiosa das palavras, achegue-se mais, fique a vontade.

Vintém: Antiga moeda portuguesa de cobre introduzida no Brasil no final do século XVI - equivalia a vinte réis. A conclusão de que "vintém" tem origem exatamente no valor - "vinte réis - é tentadora. Mas a explicação é outra. A origem de "vintém" é o português antigo "vinteno", cujo valor correspondia à vigésima parte (um vinteavo) de um cruzado (400 réis).

Xará: O termo é usado no sentido de "homônimo" e também de "amigo", "companheiro". Trata-se de mais uma contribuição dos indígenas à língua portuguesa. A origem é o tupi "xe´rerá", que significa "meu nome".

Té a próxima!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Reverso

Um só Momento...
No Vento,
L E N T O, L E N T O,
De Alento(.)

Um Movimento...
Violento,
Pigmento,
Dum Comportamento(.)

Um
Fingimento...
Cinzento,
Do Sofrimento(.)

É um
Lamento...
O Complemento
De Autoconhecimento(.)

É um Arrependimento...
O Aposento
Do Pensamento(.)


(VFM)



Obs: Para ser lido de cima pra baixo e de baixo pra cima.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Opa, opa! Não posso deixar de fazer barulho para esta série. Aos amásios de plantão da Literatura, o post de hoje trago um trecho de outro livro que me emocionou, tanto pela simplicidade, finura (pouco mais de 120 páginas), mas com uma história sublime, única. Ou seja, não precisa escrever demais para montar um ótimo livro. Leiam!

"A linha começou a erguer-se lenta e cautelosamente, e pouco depois a superfície do oceano agitou-se à proa do barco e o peixe apareceu. Apareceu à tona d'água e parecia nunca acabar. A água deslizava-lhe mansamente pelo enorme dorso. Brilhou à luz do sol. A cabeça e o dorso eram purpúreos e as barbatanas abriram-se, imensas, cor de violeta pálida. Tinha a espádua mais comprida do que um "bat" de beisbol, rematada com um estouque, e saiu da água completamente, tornando depois a mergulhar, suavemente, como um mergulhador. O velho viu a cauda em forma de foice desaparecer e começou a dar-lhe linha."

Livro: O Velho e o Mar

Autor: Ernest Hemingway