quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sê Audaz!

Se é capaz de manter a calma
E muitas vezes exclui o amor,
Quem sabe a solidão acalma,
Ou se a indiferença é melhor.

Ora, se não é capaz de tentar,
De sonhar, de forçar o coração,
Que ao menos arrisque deixar
O brilho e a nuvem da paixão.


(VFM)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Etimologia

Olá marujos cibernéticos! Reitero, aqui, o post das curiosidades de interesse intelectual, com informações insólitas, que o Márcio Bueno anda me contando em seu livro. Vai aí mais algumas guloseimas do nosso léxico.

ÉBRIO: Bêbado, embriagado, sendo seu oposto "sóbrio" - o fato de se referirem ao mesmo assunto e terem as mesma terminações parece indicar que existe uma relação de parentesco entre os dois termos. "Ébrio" vem do latim "ebrius", cuja formação é controversa. Segundo F. Saraiva, o termo seria formado por "e-", ou "ex-" (acima de), e "bria" (caneca para vinho). Outros autores explicam que quem se excedia, tomando uma quantidade acima da medida da caneca para vinho, ficava "e-bria", ou "ex-bria", o que teria dado no nosso "ébrio".

GLANDE: O termo vem do latim "glans", "glandis" e designava o fruto do carvalho ou da azinheira e outros objetos em forma de bolota. No século XIX, pela semelhança, o termo "glande" foi adotado por via culta, em anatomia, para denominar a cabeça do pênis. Uma derivação do termo latino é o diminutivo "glandula", origem da nossa "glândula", que serve para designar "pequena bolota" do organismo, como, por exemplo, a amígdala.

É isso! Té a próxima!

domingo, 26 de abril de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis


Para não perder o costume, cá estou eu de novo apresentando um pedacinho do bom e do melhor da Literatura mundial. Este fragmento de hoje é, fique registrado, um dos que mais aprecio, vanglorio e ovaciono. É um dos melhores livros que já li. Com vocês Miguel de Cervantes com o glorioso Dom Quixote.



Desocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar. Mas não pude eu contravir a ordem da natureza, que nela cada coisa engendra seu semelhante. E, assim, o que poderá engendrar o estéril e mal cultivado engenho meu, senão a história de um filho seco, murcho, antojadiço e cheio de pensamentos díspares e nunca imaginados por ninguém mais, exatamente como quem foi engendrado num cárcere, onde toda a incomodidade tem assento e onde todo o triste barulho faz sua habitação?



Livro: Dom Quixote

Autor: Miguel de Cervantes (1547-1616)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cleptomaníaco

De vez em quando, ou quase sempre, roubo umas coisas que vejo paradas por aí. São coisas, muitas vezes, esquecidas pelos outros, com pouca valia, um ceitil para a sociedade atual. Comecei esse vício, que, na minha opinião, não é um defeito, alguns anos atrás. Já me repreenderam por ter tentado furtar um quadro do Cavalcanti, o sino da igreja matriz de Ouro Preto, as estátuas dos profetas do Aleijadinho, o pirulito da praça sete, até o lago artificial do Congresso. Sinceramente, eu achei um absurdo me recriminarem, mas, por outro lado, não posso privar um povo de ver as belezas do nosso país. Então resolvi diminuir nos furtos, ou melhor, na ação e empreitada. Uma chave daqui, uma caneta acolá, um batom outrossim. Confesso que sou um exímio mandrião e tudo que desejo, quando os olhos vibram e se entumecem famintos e cobiçosos por algo, consigo ter em minhas mãos, lépidas e leves. Tenho uma coleção exorbitante de bugigangas preciosas. As pessoas, ao me visitarem, se assustam com o amontoado de cousas lá em casa, muitos me acham um belchior. Sempre afirmo que sim, que trabalho com isso, mas não vendo nada a ninguém. Continuei minha furtiva saga. Logrando êxito, sempre! Guarda-chuvas, mochilas, escova de dente, chaveiro, espelhinho, xampu, etcetera etc.

Perguntam-me por quê faço isso. Ora, é o desejo irrefreável de posse. Algo d'alma. Um prurido de ser proprietário. Uma fome kigaliana de querer tudo. Aspiração de dono do mundo. É, em suma, um preenchimento humano incomparável. Vocês podem imaginar qualquer coisa, ela estará lá em casa, nos meus domínios. Minha última atuação foi em Londres. Em terras inglesas consegui o anel da rainha, num descuido dela e da guarda-inerte-real. O anel se encontra na redoma de vidro na cabeceira da minha cama, junto com meu Coubert e Munch. Fiquei feliz e em regozijo por um bom tempo, pois tinha tudo, ou quase. No momento em que parecia perder o interesse de apossar das cousas, lembrando o velho adágio: "O princípio do fracasso é quando começamos a acostumar com o sucesso", eis que surge, novamente, irreprimível, o anseio, o desejo de obter algo.

Começando do começo, tautologicamente falando, estava, eu, flanando pelas ruas da cidade, sem preocupação, ouvindo um jazz, eis que me aparece o inesperado, o inenarrável, o divino, o único objeto que não possuia, ainda. ELA! Estava estática, tomando uma cerveja, parecia esperar alguém, cabelos escuros como a noite, olhos de Afrodite, penetrantes, e um sorriso como pérolas, lindo colar. Aquilo foi arrebatador. ELA é. Minha boca salivou, minhas mãos suaram, meu corpo tremeu. Rapidamente fui ao seu encontro. Como imaginei, ELA foi simpaticíssima. Conversamos horas demoras. Cada palavra era um arpejo, uma nota, sonata de Bach. Não me gabando, mas consegui com minha sagaz léria, o abençoado beijo. Que beijo! Minha boca derretia na dELA. Caí de amores, não consegui resisti. Passamos uma rápida noite juntos. Estava tudo perfeito. O céu era o colo dELA. Esqueci todas as minhas posses, perdi-me, alucinei-me. Achei que nunca fosse acabar aquele dia e não queria. Porém... ELA teve que descansar em seu palácio. Fui embora cabisbaixo, mas ainda tinha o gosto dELA nos meus lábios e o perfume aromatizando todo o ar. O dia perfeito!

Cogitei ligar novamente só para ouvir seu canto. Contive-me. Liguei no outro dia. No entanto, friamente ELA me atendeu. Não rendeu assunto. Inventou infinitas desculpas descabidas. Não podia nada. Desdenhou-me. Segurei o pranto no cílios e traguei a dor secamente. Nunca mais liguei de novo, por ora. Voltei ao meu labor. Furtei ainda mais, demasiadamente, freneticamente. Fiz-me feliz de novo, só um pouco. Roubei tudo, de todos. Mas minha maior surpresa foi que, eu, pensando em roubar o coração dELA, ELA que roubou o meu.


(VFM)

Obs: Isto é uma obra de ficção.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Livro Negro

A frase escolhida para o texto faz parte do prefácio que abre o livro escrito por Nietzsche para o seu O Anticristo: "Este livro pertence aos homens mais raros. talvez nenhum deles sequer esteja vivo".


Havia, mais ou menos, um ano que ele tinha começado a escrever seu livro de memórias. Mais que memórias, pois continha seus pensamentos ideais sobre o mundo. Na verdade o livro é como se fosse um diário acerca do seu dia-a-dia e do seu novo trabalho. Ele aceitou uma grande oferta de emprego para trabalhar nos Estados Unidos, que muitos do seu país cobiçavam por seu alto cargo. A seleção foi duríssima, dois anos de preparação corporal e espiritual, contando com trezentos homens concorrendo por esta vaga. O trabalho tão concorrido era para piloto de avião de uma famosa companhia aérea americana, American Airlines.

No seu país, onde as agruras da vida são evidentes, uma chance como essa não se devia desperdiçar. O que ele mais desejava era mostrar ao seu povo o seu valor, o reconhecimento como um vitorioso e um homem excelso. Muito apegado a religião, o seu livro, tratando ele desta forma, parecia uma nova visão de mundo, um Alcorão reescrito a seu modo, bem profético, auspicioso e, um tanto quanto, severo.

Quando saiu a lista dos escolhidos, logo ele viu seu nome resplandecendo, solitário e unânime, como um dos vencedores. Ele rezou, após o resultado, três dias agradecendo a Alá. Foi aí que ele decidiu contar toda a sua trajetória. Uniu-se a outros irmãos árabes, que tinham o mesmo intuito e finalidade. Diante disso, alguns meses depois, ouvindo todo o cronograma do labor e coordenadas de atuação em outro mercado e país, partiu para as Américas.

O seu livro devia conter todos os detalhes, pois ele foi incumbido disto. Entre os outros selecionados, era o que ele melhor fazia era saber escrever. E assim o fez.

Ao chegar, tudo já estava preparado para acomodá-lo e auxiliá-lo no que precisasse. Estudou intensamente o inglês. Tudo o que solicitava ele cumpria e registrava. Passou meses se preparando para poder fazer o seu primeiro voo. Sempre muito discreto e comedido. Sempre clamando por Alá, agradecendo o seu destino e a sua escolha. Não estabelecia vínculo com os habitantes de Boston, cidade na qual residiu. Seus contatos e amigos tinham sido os que viajaram com ele. Mantinham foco no que era predestinado pelo profeta. Assim foi.

Eis que é chegado o dia do seu e dos seus irmãos de fazerem o primeiro voo. Na semana anterior a tensão e rezas intensificaram. Muita força, muita força, era o que ele pedia. Ele estava decidido de que faria o seu melhor e não desapontaria o seu povo, o seu Salvador.

Cada qual entrou no seu avião, com suas responsabilidades. Ele assumiu o voo 11 da American Airlines, Boeing 767-223, saída de Boston com destino a Los Angeles. Carregava mais de setenta passageiros. Partiu. Alçou voo nos ares americanos. Tudo corria bem, nos primeiros minutos. Até o momento que ele mudou a rota de destino, avisou os passageiros da situação tempestiva e islâmica. Ele rumou, intrépido, para Nova Iorque. Pouco tempo depois, os passageiros em pânico, gritos ocupando os assentos, e o avião conturbado. Não hesitou e avançou ao prédio americano de maior conceito, World Trade Center. Atingiu o lado norte da monumental construção. Fogo. Espanto. Fim. Não demorou e seu amigo colidiu com o lado sul da torre. Mais de 3234 mortos, no total. Foi a completude do ódio árabe. A força Islã “imperando” sobre o império americano. Assim estava escrito no livro de capa negra e com a marca da Al-Qaeda.

O livro foi achado dentro da mala dele, após o horrendo e marcante acidente, por policiais do F.B.I.. Constava a seguinte assinatura e últimos dizeres no livro:

Dia 11 de setembro de 2001

Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo.



Mohamed Atta.



(VFM)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Suicida


Secretamente e indeciso
O corpo se põe de pé,
Como se quisesse até
Despedir-se num sorriso.

O tempo tinto e impreciso,
Cheirando a mofo – Solidão!
Seguiu o destino: Depressão!
Extremo sinal, um claro aviso.

Fatigado o corpo, e liso,
A saudade dos homens,
Em um delirius tremens,
Foi pular para o paraíso.


(VFM)

sábado, 18 de abril de 2009

Fragmentos e Poemas Memoráveis

Como de praxe deste blog, eis uma das séries que semanalmente estabeleci postar para os apreciadores da boa Literatura.


AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Livro: Brás Cubas

Autor: Machado de Assis (1839-1908)