domingo, 5 de abril de 2009

Gauche

Acabaram com a modorra?
Quem vive na gangorra?
Quem sofre na masmorra?
Nimguém? A vida? Corra!


(VFM)

sábado, 4 de abril de 2009

SORTE

SORTE


Impressionam-se com o impressionável.
Do que, num repente, de clara sorte,
Algo que não se importe e se importe;
Um sinônimo de rara alegria inefável,
Que te põe numa comoção inexplicável.
Às vezes uma paixão, outras o esporte,
Noutras, elevação de crenças do céu,
Te colocam, assim, um anseio forte,
Que a sorte é prazer que se conforte.


(VFM)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Da Série: Fragmentos e Poemas Memoráveis

Começo o post de hoje com a pretensão de colocar, pouco a pouco, um compêndio de frases, ditos, adágios, fragmentos, poemas etc. insignes e afamados que valem à pena ler, serem guardados e torná-los, ainda mais, inolvidáveis. Espero que gostem e acompanhem. É isso!


"Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados. Quando se ouviu a detonação, uns cinco minutos depois de a menina ter abandonado a mesa, o pai não se levantou de imediato, mas ficou alguns segundos paralisado com a boca cheia, sem se atrever a mastigar nem a engolir nem, menos ainda, a devolver o bocado ao prato; quando por fim se levantou e correu para o banheiro, os que o seguiram viram como, enquanto descobria o corpo ensangüentado da filha e levava as mãos à cabeça, ia passando o bocado de carne de um lado ao outro da boca, sem saber ainda o que fazer com ele".

Livro: “Coração tão branco”
Autor: Javier Marías.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mulher feia (?)

Quem é ela? Quem é ela?
Não sei se é madame, concubina ou donzela,
Só sei que o meu coração é dela!
Teu corpo de mármore, greda feita por deuses, é lindo!

- Dizem que já foi casada.

E daí! Para mim pouco importa.

- Cinco vezes!

Tudo balela.
Não consigo esquecê-la.
Eu a quero mesmo sem ouvir a tua voz azul.
Terá nome esta mulher?
Com certeza é algo que rima com bela...

- É Creide.

Interessante... Creide! Que dizer excitante...!
Quero estar sempre ao lado desta formosura.
Por onde vagas todas as manhãs
Totalmente absorta e com doçura?

- Vejo a moça rumar pra capela.

Estou apaixonado...
Apesar de ainda estar no anonimato da tua boca.

- Meu amigo, cautela! Não sabe a procedência desta cadela.

Como ousa falar assim do meu amor, seu cretino!
Respeite minha nova namorada, minha amada.

- Não sei o que tu viste. A coitada é feia e banguela,
Uma górgona das melhores (ou seria das piores?).
Além de tudo é careca, vesga e tem mãos de pedra.

Tu tá com inveja. De longe sinto o hálito de violetas
Espargindo nos meus ouvidos, nos meus lábios secos.

- Companheiro, cuidado, a danada mora na favela.

Para mim tanto faz, pois não nasci em palacete algum.
É uma princesa, parece atriz de uma telenovela.

- Está mais para coadjuvante de radionovela, onde não se vê a fealdade física. Tenho é dó de ti, pois nela tudo falta. Cadê os seios bojudos? E a bunda volumada e tesa? A pobrezinha é uma magricela!

Não agüento mais ficar calado ao vê-la. EU TE AMO, Creide!

- Eta mulher feia! Você só pode estar com areia nos olhos. Compadre, eu te aviso: da cadeia ficar com mulher assim.

Cala-te!
Minha musa, minha donzela, Creide...
É a única há habitar o meu humilde peito,
Lar apertado e cheio de defeito.
Amigo, anuncie a todos para o meu chá de panela.
Irei casar com ela.
Irei ter filhos dela; miríades!
Irei viver feliz com minha Creide,
A mulher mais bela,
Que meu olho, o único, míope, viu.



(VFM)

terça-feira, 31 de março de 2009

Ovo ou galinha

Estava com fome. Era uma dessas vontades de comer (qualquer coisa) algo para estafar ou sujar os dentes. A garganta pedia suco, o estômago queria ovo. Abro a geladeira e vejo que não tem mais ovo, de novo?! Procurei no galinheiro do vizinho. Furtar de lá é muito fácil, ainda mais sendo o morador um velhinho.

Quando entrei no local o que via era um tropel de galinhas, brancas, marrons e pretas. Quem sabe pegasse um pouco de leite das tetas da vaca para acompanhar? Não. Quero ovo, mas nenhum sinal do objeto desejado por minha barriga. E porque não comer a galinha? Cadê a dama dos ovos? O que mais que tinha pra forrar? Procurei uma mais cheinha... Pegar o bicho foi um estorvo. Enfim, segurei a “bichinha” com vontade e levei direto pra cozinha.

Ao chegar a casa pensei: mas e agora? Como faria para essa ave colocar um ovo?! Esperar é que não quero e não agüento. Resolvi passar para os métodos mais severos. Apertei-a como se ela fosse um limão.

Nada...

Nada saí do cu da galinha (acho que esse bicho tem é cloaca). De lá só saia caca... Tentei ameaçá-la com uma faca. O animal, burro, estava tirando com minha cara, pois ela me olhava com aqueles olhinhos negros de quem não quer fazer nada e insinuando: “continue esperando aí seu babaca, não vou te dar nada”. Cogitei por um tempo e tomei uma atitude: porque não comer esta galinha mesmo?! Não vai ter ovo, presumo. Já estou quase desistindo e passando a querer um torresmo, daqueles bem cabeludos e brilhantes. Não, eu sou renitente. Dei um tapa no bico dela e gritei com ímpeto: Dá-me logo a porcaria do ovo, pois não pedirei de novo! Ela não queria colaborar, nem defecar a tal esfera marrom ou branca. A ave continuava a me ridicularizar: “não tenho medo de você. Arranca, arranca que eu quero vê!”. Meu pavio tinha se acabado, queimado, por inteiro. Foi quando peguei o porrete e, em riste, gritei: Quero ver quem morre primeiro a galinha ou o possível ovo aí dentro... A pancada seria derradeira e fatal. Podem achar que sou um cara mal, mas famélico como estava não dava para esperar, ou suportar.

No exato momento em que armei a pontaria, à “bichinha” com os olhos estufados de fobia, chega a minha esposa e da porta mesmo ela disse: “Comprei ovo amor!”. Perdi o rumo da tacada. Olhei para meu cônjuge assustado e esbaforido, aquela galinha tinha exaurido minhas forças e a paciência. Ao retornar o olhar para a mesa a ave tinha sumido.

Nunca mais a vi ciscar por aí. Nem eu nem o meu vizinho. O bicho não voltou mais para o galinheiro, sabe se lá por quê; acho que dei um gelo na coitada. Mas, agora, eu não deixarei de me apetecer com os ovos comprados para mim. Na ávida fome que me encontrava mandei, logo de cara, esquentar todos. Meia hora depois, eu quase desfalecendo, amarelo, e de mau-humor, estavam todos eles limpos e sem cocô. Num instante quebrei todos e, para minha surpresa, estavam todos chocos.

Não como ovo de novo, desisti!

Mais fácil é comer carne de jabuti.



(VFM)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Lutuoso

Ao meu avô, João Ferreira.



Silêncio, um minuto,
Hoje acordei de luto!

Minhas Lágrimas vão a procissão,
Com uma parte do meu coração.

Agora só me vem a sua recordação...
Agora, quem vai me cantar uma canção?

Contigo pensava em mulheres de maiô,
Ouvindo boa música, fumando no bistrô,
Ríamos tanto de suas histórias de gigolô,
E choramos pela sua colombina, ó pierrô!

Tudo o que aprendi e
Foi contigo, meu avô!

Silêncio, um minuto,
Hoje acordei de luto!

Minhas Lágrimas vão a procissão,
Com uma parte do meu coração.



(VFM)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Vida do Trabalhador

Tu conheces a vida do trabalhador brasileiro? Não os empresários e empregos hierarquizados da sociedade, mas os que calejam as mãos, os que pegam no pesado, na enxada e no machado? Saibas o teu cotidiano, então.

És tu, trabalhador, que despertas antes da aurora, onde a mata vasta e ainda orvalhada faz pulular os coaxos dos sapos enamorados. És tu, morador da periferia, que tens as vestes carcomidas e consomes o primeiro café do dia, amargo.

És tu, homem de inúmeras crias, que saúdas todos os dias os vizinhos, com disposição e alegria. No ponto cedo, esperas tua condução, como sempre lotada; moléstia do trabalhador. Mais uma sardinha na quadrada lataria ambulante. O aperto e os odores incômodos dos pobres laboriosos exalam em todo o ambiente. Além do mais, vais empoleirado por pelo menos uma hora em trepidação, solavancos e empurrões.

És tu, trabalhador, que sofres depois por tanto tempo e, ao chegares ao destino, caminhas para economizar outra lotação. E vais pensando na vida, em guardares teu ordenado. Ao mesmo tempo, cantas Wilson Batista e sua música “o bonde São Januário leva mais um operário sou eu quem vou trabalhar...” Enquanto isso, os carros importados desaguam nas avenidas e destoam a realidade brasileira.

És tu, senhor, que vês pelo chão sujo e sem nome, no meio do lixo, homens e mulheres cantando, misericordiosos, uma ode à pobreza, com os braços erguidos, ao léu, buscando o aperto de mão do dinheiro alheio; ao mesmo tempo, consumindo perspectivas inúteis. Assim, vais vendo crianças descalças correrem seus anos, debaixo dos semáforos, fazendo malabarismo nas faixas do triste fado. Lembras que algumas têm pouco ou mais ou menos o tamanho dos seus rebentos.

És tu, pastor do sofrimento, de andar pesaroso, tendo a insossa companhia da ilusão. Ao badalar dos sinos percebes o séqüito na porta da igreja, que és contido por sonâmbulas criaturas perdidas no tempo; algumas com três ninhadas nas murchas mamas. E pensas: “Orais por eles...” Tanta diferença social no vagalhão da realidade. “Que és feito de tu? Porque sonhas água fresca em pote conspurcado?” A cidade desagasalhada de Esperança chora torrencialmente em teus telhados, e os derrubam. Dás adeus aos teus pertences boiando em água pardacenta. Acenas para quem amas, despede-se da tua cama. De repente, a sirene do carro de polícia te desperta dos devaneios do cotidiano. "Lá se vão seres aflitos, presos por grades da sociedade que os formou...". Sentes pena e tristeza.

És tu, andarilho, de rosto vincado, com o varal dentário cariado e um e outro ausente, que ainda crê num mundo melhor. Ruminas num sistema capitalista ingrato, com suas características de escassez. Paras em frente à banca e subtrais do bolso o parco dinheiro para o jornal. Os classificados insignificantes e sem empregos.

No trabalho, chegas e pões a armadura do batente, que te tolhe os movimentos e que te faz transpirar em demasia. O sol soca o lombo torneado e rígido; a fome te faz diminuir o ritmo de trabalho. Chamas teus amigos para o almoço. O self-service, sem balança, te ajuda a deglutir a comida o quanto quiseres. De prato feito, pirâmide egípcia, tens de colocar a carne em outro vasilhame. Comes vorazmente, pois o tempo é teu algoz. Voltas e ouves os brados poluídos de teu enfadonho patrão. Ao fim do expediente, soltas os grilhões; recebes a féria, que não paga as contas e impostos exorbitantes.

És tu, sofredor, de cansaço explícito, de companheiros desnutridos e esquecidos pelo mercado. Trazes contigo a visão dos aflitos, enfrentas a mesma labuta diária, chata. No caminho de casa és recebido por pipas, bolas de futebol, fogos de artifícios e fogos de armas de artifício. És tu, com a cesta básica nos braços; de filhos esfomeados, fracos, uns de barriga d’água, os outros maltratados, mas semeias o amor.

És tu, trabalhador, negro, ébrio de cana brava que te faz esquecer o tormento e apazigua tua vida. Esqueces a chave de casa no balcão do bar, escutas pagode e danças sem parar. Esqueces de ti mesmo, assim como o governo o faz. Retornas ao lar. Beijas o semblante da mulher amada, e dormes... E sonhas um dia deixares de ser a segunda pessoa... Na gramática, na cabeça dos chefes, no dia-a-dia e na vida.