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quinta-feira, 26 de julho de 2018

CONTAS


Já não pago mais as contas.
Ah, mãe! Venda o que achar.
Já tô com as malas prontas
Vou embora pra algum bar.

Sei que serei um boêmio
Bem eleito pelo povo,
E se eu vencer de novo
Ganho uma conta de prêmio.

Na vida paga-se tudo,
Nem morrer é de graça.
O médico foi bem rudo,
A dor do tapa não passa.

Tento. Por mais que trabalhe
Tenho que pagar quem devo.
Tento. Por mais que eu fale
Dívidas são o que escrevo.

Nada mesmo afugenta
Os credores, os carteiros.
Sorrir não é ferramenta
Para pagar os primeiros.

Toda conta é tortura,
Grande tristeza extrema.
Conserve, mãe, a fatura
Como último poema.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

SILÊNCIO


Pensar em silêncio
O ruído que rói o homem,
A palavra estonteada
Do tempo.
O silêncio dos terraços
Pelo lado de dentro,
Pelo lado de dentro
Da gente.
O terrível silêncio
Subterrâneo do grito.
Acordemos as vozes
Dos mortos,
Árvores caladas.
Pensar em silêncio
A cidade debaixo
Do passado,
Antes que se extinga,
Durante os meses
Da fala, o mais remoto dom:
O silêncio

quarta-feira, 16 de maio de 2018

AFLORISMOS NOTURNOS

Eu demoro a chegar em casa de noite, sim! Quem nunca parou pra ajudar um vagalume com o pisca alerta ligado?!

quarta-feira, 9 de maio de 2018

QUADRA



Tenho olhos habituados aos choros,
Diante duma constelação que delira.
Creio que nos olhos a lua adquira
A força das lágrimas: dos meteoros!

quinta-feira, 19 de abril de 2018

MINHA PASÁRGADA



(Aos 132 anos do Manuel Bandeira)

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um passeio pra Pasárgada.
Que dor me dava na máquina dos olhos.
Porque Pasárgada era um quarto
Descascado no ramo de um orfanato.
Levaram-me com raízes queimadas
Pras chuvas loucas e camas
Rangentes de violinos.
Eu não gostava dos espelhos vigilantes.
Queria era estar nas alegrias
Extáticas e azuis dos passarinhos.
Pasárgada devorava com relâmpagos
minhas inúmeras letrinhas.

- Pasárgada foi a terra do rei e minha
tristeza aplainada de poeta.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

PÁTRIA


Se a pátria nos impõe desigualdades
E vemos só injustiças e matanças,
Gritemos! Gritemos alto por mudanças,
Pois a liberdade tá atrás das grades.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

JUÍZO FINAL



“ April is the cruellest month...” (T.S. Eliot)
“Abril é o mais cruel dos meses”

No dia 4 de abril
O juiz bateu panela,
A justiça sumiu.

Sofre a sequela
Esse país molambento
Em tom de mazela.

Em todo momento,
São ameaças e tiros
Sem um argumento.

Somos pioneiros
Nos tipos de corrupção,
Pobres brasileiros.

Qual a nossa missão?
Políticos e juízes,
Reis creem que são.

Tolos, infelizes,
Vemos mais uma pessoa morta
De todos matizes.

Batem na sua porta.
Soldados e mil impostos,
Ninguém te conforta.

E cheios de desgostos,
Vemos o Brasil derruir
Em quantos mais rostos?

Quem vai se redimir?
Enquanto o povo sofre
Tem sempre um a rir.

A senha do cofre
Nosso presidente sabe.
Digite: Enxofre.

Aqui tudo cabe.
Exército e o ladrão.
Brasil se acabe.

quarta-feira, 28 de março de 2018

PEQUENA HISTÓRIA DA CRIAÇÃO



(P/ Millôr)

Bum! E Deus fez Adão.
Um grande preguiçoso
Vivendo de pensão.

Triste vagabundo,
Quis uma ter companhia
Pra esse mundo.

Por uma bagatela
Vendeu uma árvore
E uma costela.

Nascia Eva.
Mulher pra abalar,
Mas maleva.

Já de saco cheio
De Adão, Deus perguntou?
- Gostas? - Odeio!

Foi dar cabo
Da situação chata
E viu o diabo.

Em 1 minuto,
Vendeu a Eva o coração
Como um fruto.

Deus a avisou.
Eva falou: - Foda-se!
E comemorou.

Foi uma mordida.
Queria ela tá banguela
do que essa vida.

Saiu sem nada.
Nasceu a sociedade
Deseperada.

Ah! Pobre de Eva.
O que agora ganha
Não paga a cerva.

Adão, poeta,
Vende suas poesias
Aos proxenetas.

Caim e Abel:
Um virou traficante,
O outro, no céu.

Maldita maçã!
Agora faz sucesso
No Instagram.

Bendito fruto!
Adão e Eva vivem
Sem um puto.

quinta-feira, 22 de março de 2018

EM TODA MINHA ROUPA

Ao Dia Mundial da Poesia! ❤



Predominava
Em toda minha roupa
Seu corpo todo
Em sílabas e folhas.
O vento inesperado
Sacudia as
Palavras e
Amarrotava as
Madrugadas
Dos relógios.

Eu me perdia
Por dentro
Só para você ficar.

O seu cheiro de terra
Tornava tudo
Muito cotidiano.
A tarde de chuva
Entrava em
Toda a roupa,
Organizando
Minha solidão.

Suado num recanto
De memórias,
Encardido com
Os pequenos lugares,
Predominava
Em toda minha roupa
Um resto de casa,
Uma marca de abraço,
A rua atropelada,
O teu corpo todo.

Por nada a roupa
Tirava, mas rasgava-me
Com a mesma pedra
Faca argumentos
E dor.

Sei que a roupa
Não me servia.
Andava apertado
Pelos muros da vergonha.
No entanto,
A idade pregada na
Roupa me chamava
De amor.

Predominava
Em toda minha roupa
O poema inconcluso
Do aroma suficiente
Da sua última lágrima.

E eu usava sempre
A mesma roupa
Só para usar seu
Corpo todo.

segunda-feira, 12 de março de 2018

UM PORRE COM BUKOWSKI



(Pelos 24 anos de morte do velho safado)

Nunca chamei de PORRE
A sensação de despertar,
Após uma noite de loucura,
Como se tivesse sido
Atropelado pela Variante
Do pai da sua ex-mulher.
Eu sempre chamei isso de Amor.
Amor que nos seca a boca
Feito um antidepressivo
Que engolimos quando
Achamos que estamos
Atolados em merda.
Amor que nos explode o crânio
Na dúvida de uma cefaleia,
Uma bala de revólver ou
Uma ambulante traição.
Amor que nos faz passar
Horas prostrado na cama
Ou nas preces do banheiro,
Balbuciando um nome,
Regurgitando a lua mestiça.
Amor que nos tira do lugar
Aos pontapés igual ao
Segurança do prostíbulo.
Amor tem esses frenesis
E distúrbios de um fogaréu
Vivo de tesão e perfume.
Por isso, tenho persistência
(Talvez um pouco de sorte)
E aceito, ancorado no balcão
De um boteco miserável,
Qualquer sorriso melancólico
Que anime meu coração
A pagar por um sentimentalismo
Barato. E possa acordar,
Apesar do sol inimigo, ciente
De que o amor é tudo um porre
E que vale a pena o amor,
Já que ele é a soma de
Todos os meus erros.

(VFM)

quinta-feira, 8 de março de 2018

MINICONTO TRISTONHO


Noc, noc. Bate a recordação de quão feliz nós erámos. A Tristeza é uma visita que não bate à porta. Entra sorrindo sem saber o que ela significa, com um bolo na mão decorado de repetidas oportunidades. Caminha na sucessão dos fracassos sem peso na consciência. Adentra agradecida pela casa, consolando invencível os cômodos. Senta trajando a imbecilidade dos corações, tem fome de lembranças e a sede irrefreável dos tuaregues. Servimo-lá suportando seu passado, artifício para adivinhar se a mentira é uma pequena felicidade. 
A Tristeza gosta de perguntar se notamos sua mudança, o cabelo novo escarpado, a roupa nova e fria como sempre foi, mas que nunca reparamos. Respondemos com lágrimas nos óculos, cientes que ela nos rouba os talheres ao fim do dia e pede pra levar um tupperware da nossa mansidão. 
A noite perdura sobre o brinco incógnito da lua. Lá está ela: a Tristeza de papo para o ar, bafejando palavras aos jovens que sabem sofrer mais. Para ela, a dor dos velhos são passeios diários. Insone e indomável, conta bem sobre tudo isso. 
Vão saindo os convidados. Destinam-se à porta com a dor voraz que cada um tem. Despedem-se um a um. Erguem uma tragédia de adeus. Porém, a Tristeza fica com todo o tempo que ela traz. Com sua desmesura. Com sua envelhecida negociata. Com o inoportuno. A Tristeza não está fora do jogo. Dá as últimas cartas. Cigarro à deriva, fumegando alguns destroços. Tosse uma sugestão. Soluça bêbada um acidente. Diz que foi sem querer. Nunca quis prejudicar os poetas, mas que eles eram perigosos. Falava por labirintos. Em alto mar. 
Era tarde demais. A Tristeza não partia, mas partia a gente em homeopáticos desfiladeiros. Bocejávamos. Pescávamos uma lástima que só ali a gente via. A Tristeza tinha vida própria. Queríamos deixá-la sozinha. Diríamos que temos sono e que um cansaço soturno já nos rasgava. Não conseguimos demovê-la. Ela insistia em permanecer. Apontava o dedo para o relógio afirmando que para a dor não se tem hora. Não se sentia inconveniente. Convinha acreditar.
A Tristeza era a nossa visita. Lá estava ela. Ali. Percebe? Vê? Sentada como uma armadilha para a infelicidade. Julga-nos com seu olhar impossível de escapar. Não havia remédio para a situação. A Tristeza não era uma ameaça.Ela queria ganhar nossa confiança. Apostávamos em suas palavras dentro da gente. Com o tempo confiamos piamente. Mais difícil era o amor. E amávamos a Tristeza.
Um dia ela desapareceu. Talvez estivesse ido ao banheiro, foi, quem sabe, lavar um copo ou encharcar um rosto inocente. Herdávamos sua postura. A Tristeza voltaria logo. Ela nunca se demora. O relógio o sabe chorando sua espera.
Noc, noc. A Tristeza talvez batesse agora no peito. Por certo, estaríamos prontos para abrir a porta e bater a porta para enfrentar, prenhes de segurança, a vida, totalmente nobres de Tristeza, até a próxima visita. Noc, noc.
(VFM)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

RECEITA PARA FAZER UMA ONÇA


a criança perguntou à sua mãe 
como se faz uma onça.
A mãe respondeu que primeiro
é preciso escrever um poema
sobre a sombra de uma árvore 
cansada e colocá-lo numa mala.
depois despacha-se a mala
com o poema dentro para 
algum lugar clandestino.
Agita-se antes de usar e
deixa agir entre uma verdade
que é uma outra verdade.
quando a memória, sem querer,
rugir, a onça estará pronta
para devorar a felicidade
insuportável dos espelhos.
a onça vai conseguir
caminhar pelos mistérios
dos asilos e lamber a mão 
que balança o berço,
diante da selvagem
intolerância dos outros.
Sirva a onça à vontade
antes que ela crave em
alguém seus olhos tristes.

(VFM)

HAIKAI PARA SCHOPENHAUER



Sofre sem saber.
É renovável a dor
P'ra se perceber.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

ESMALTE


ela pintou a unha
do polegar para esmagar
a cabeça do rapaz,
mas furou o dedo
no guarda-chuva.
do polegar colorido
o sangue envelheceu o rio
e cobriu toda a cidade
com ilusões mais caras.
enquanto as pessoas
remavam um longo silêncio
sobre seus caixões,
o rapaz sorria,
encharcado de relógio,
com a pressa de Deus
para embarcar no jornal estrangeiro de ontem.

a moça roeu a unha,
a pele, as lágrimas,
os ossos do ofício e sentiu na boca,
pela primeira vez,
o gosto do desconhecido,
que continua a lhe crescer
como uma micose.

(VFM)

sábado, 3 de fevereiro de 2018

MINICONTO


Um bêbado pergunta ao outro:
- Já foram quantas?
- Não sei. Pede mais uma pra gente não perder a conta.