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quinta-feira, 8 de março de 2018

MINICONTO TRISTONHO


Noc, noc. Bate a recordação de quão feliz nós erámos. A Tristeza é uma visita que não bate à porta. Entra sorrindo sem saber o que ela significa, com um bolo na mão decorado de repetidas oportunidades. Caminha na sucessão dos fracassos sem peso na consciência. Adentra agradecida pela casa, consolando invencível os cômodos. Senta trajando a imbecilidade dos corações, tem fome de lembranças e a sede irrefreável dos tuaregues. Servimo-lá suportando seu passado, artifício para adivinhar se a mentira é uma pequena felicidade. 
A Tristeza gosta de perguntar se notamos sua mudança, o cabelo novo escarpado, a roupa nova e fria como sempre foi, mas que nunca reparamos. Respondemos com lágrimas nos óculos, cientes que ela nos rouba os talheres ao fim do dia e pede pra levar um tupperware da nossa mansidão. 
A noite perdura sobre o brinco incógnito da lua. Lá está ela: a Tristeza de papo para o ar, bafejando palavras aos jovens que sabem sofrer mais. Para ela, a dor dos velhos são passeios diários. Insone e indomável, conta bem sobre tudo isso. 
Vão saindo os convidados. Destinam-se à porta com a dor voraz que cada um tem. Despedem-se um a um. Erguem uma tragédia de adeus. Porém, a Tristeza fica com todo o tempo que ela traz. Com sua desmesura. Com sua envelhecida negociata. Com o inoportuno. A Tristeza não está fora do jogo. Dá as últimas cartas. Cigarro à deriva, fumegando alguns destroços. Tosse uma sugestão. Soluça bêbada um acidente. Diz que foi sem querer. Nunca quis prejudicar os poetas, mas que eles eram perigosos. Falava por labirintos. Em alto mar. 
Era tarde demais. A Tristeza não partia, mas partia a gente em homeopáticos desfiladeiros. Bocejávamos. Pescávamos uma lástima que só ali a gente via. A Tristeza tinha vida própria. Queríamos deixá-la sozinha. Diríamos que temos sono e que um cansaço soturno já nos rasgava. Não conseguimos demovê-la. Ela insistia em permanecer. Apontava o dedo para o relógio afirmando que para a dor não se tem hora. Não se sentia inconveniente. Convinha acreditar.
A Tristeza era a nossa visita. Lá estava ela. Ali. Percebe? Vê? Sentada como uma armadilha para a infelicidade. Julga-nos com seu olhar impossível de escapar. Não havia remédio para a situação. A Tristeza não era uma ameaça.Ela queria ganhar nossa confiança. Apostávamos em suas palavras dentro da gente. Com o tempo confiamos piamente. Mais difícil era o amor. E amávamos a Tristeza.
Um dia ela desapareceu. Talvez estivesse ido ao banheiro, foi, quem sabe, lavar um copo ou encharcar um rosto inocente. Herdávamos sua postura. A Tristeza voltaria logo. Ela nunca se demora. O relógio o sabe chorando sua espera.
Noc, noc. A Tristeza talvez batesse agora no peito. Por certo, estaríamos prontos para abrir a porta e bater a porta para enfrentar, prenhes de segurança, a vida, totalmente nobres de Tristeza, até a próxima visita. Noc, noc.
(VFM)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

178 anos de MACHADO DE ASSIS!!!


Essa é uma "História Comum":
Tudo começou "Entre duas Datas": 21 de junho e 29 de setembro. A primeira data foi em uma "Missa de Galo" quando o tristíssimo "Quincas Borba" conheceu "Helena". Ela, seios em flor, ("Vinte anos! Vinte anos!") saí da sua "Crisálida" meninice. Ele, que "Antes da Missa", tinha vindo do "Memorial de Aires", carregava nos ombros aduncos mil "Desencantos", um poeta de "Letra vencida" não sabia mais buscar o amor. No entanto, foi "Helena" "O melhor remédio" e "A chave" para abrir os seus olhos.
Eles começaram a se corresponder por "Papéis avulsos" entre as delongadas falas do "Pobre Cardeal". Não demorou para se apaixonarem e jurarem amor eterno. Versos e mais versos "Tu, só tu, puro amor...". "Helena" era filha do "Quase Ministro" "Dom Casmurro" e de "Iaiá Garcia". Moravam na tradicional "Casa Velha" da cidade. "Quincas Borba" estava acometido de uma "Aurora sem dia", má sina, assim tinha dito "A Cartomante", que iria lhe trazer "Três consequências" as suas relações amorosas.
A primeira foi "O contrato" firmado com "O pai" junto "O escrivão Coimbra" para desposar a bela "Helena", durante "Uma partida" de xadrez. A segunda consequência foi "O empréstimo" que "Quincas Borba" teve que pedir para poder frequentar a casa da sua amada, lhe comprar "O espelho" tão sonhado pela moçoila e futuramente tentar pedir "A mão e a luva" de "Helena". Por fim, "O caso da Vara" briga que arrumou em um bar que "A sereníssima República" tinha o colocado atrás das grades no dia em que seu concorrente tinha feito o pedido de fato de se casar com "Helena".
Estavam aí suas mazelas. Foi por meio de uma "Folha rota" que ele conseguiu contato com a amada para que eles fugissem às escondidas da família e pudessem ter "Felicidade no Casamento". A questão é que não deu. A "Troca de datas" pelos correios atrapalhou tudo. Quando "Quincas Borba" saiu da cadeia e foi correndo para buscar "A melhor noiva", lá estava ela casada com o maldito escrivão, partindo para terras "Ocidentais". Não teve tempo de se despedir e de tentar roubá-la para si. Para "Encher tempo", "Canseiras em vão", o pobre apaixonado ficou a escrever e pensar de "Um sonho e outro sonho" em "Helena".
Após anos e anos, "Tempo de crise", eis que volta ela como "A viúva Sobral". "Helena" incessantemente procurou por "Quincas Borba". Porém, quando descobriu o seu paradeiro, no dia 29 de setembro, lá estava a "Marcha Fúnebre" levando "Um esqueleto", seu "Eterno!" amado, morto em "Um incêndio", para o lugar das "Almas agradecidas" (?). "Helena" nunca mais se casou e visitava o túmulo diariamente do seu poeta.
Como eu disse, era uma "História Comum", uma "História de uma lágrima". E como disse Machado: "Quem conta um conto..." talvez ganhe a "Ressureição".
(VFM)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DIA DO JORNALISTA


Saiu para a labuta da reportagem, chapéu na cabeça, coçando o nariz de cera. Tomou seu suplemento diário, abrindo aspas e um sorriso, enquanto arrumava o bigode antes da entrevista. Pigarreou um briefing de maços atrás no tempo em que olhava a última chamada no celular. Tudo para ele parecia muito clichê. Como não tinha tomado café, sentou para comer uma notícia com cobertura de ontem, bebendo um cálido artigo. Logo lembrou que tinha deixado a janela aberta e que com a chuva que se diagramava no céu o clipping pendurado no varal iria molhar. Mas não tinha jeito. O seu deadline já cantava no alto das igrejas e nas sirenes das autoridades.
Pagou o jabá antes do fechamento dos informes. Correu pelas ruas sem muita legenda, mas de súbito aquela dor na coluna - crônica! - voltou a lhe atazanar, tudo pelo exagero de cruzar as informações entre teclado e tela e cadeira e plantão. Tomou um tabloide para aliviar a dor e lembrou que devia ter levado o crédito pela noite de ontem no jornal quando viu pelo espelho a nova editora-chefe - fonte dos seus suspiros.
Porém, o que ficou divulgado foi que o seu expediente não lhe permitia furos e atrasos. Mas naquele dia ele tinha achado o gancho. Tirou da gaveta aquela velha manchete, matéria fria, que continha todo o seu mailing e intento. Sem muitas perguntas e respostas, quando ela estava encostada na sua editoria, de olho plantado em releases e personagens de cosméticos, ele, em off, a convidou para um particular pingue-pongue. Ela, na retranca, não quis repercutir aquele bate-papo, deixando em stand by, dizendo: "Lead com o fato de que a realidade tem mais caracteres do que sua pauta". Porém, antes de fechar o texto final daquela situação, ela informou que daria para o ocorrido novo título: sua demissão!

(VFM)

sexta-feira, 10 de março de 2017

DESCOBERTA


Não acreditava nesses antigos provérbios, os quais vaticinavam que ouvir sabiá é dar fruto para nosso coração incerto. Nessas de esfregar os olhos para moer os sonhos empedrados, percebi que um certo perfume ainda pendurado no bigode mudava a paisagem. Não tinha sido o excesso de álcool despejado em palavra seca, muito menos os cigarros cintilando em noite escura, mas algo mais cantado pela história, com certa vergonha entre livros. Poderia diagnosticar como um delírio, que a noite de ontem insistia em se negar passar e reafirmar que durante um tempo, ou muito tempo, podemos ser felizes?! Estou certo que o medo nos toca diante dessa incerteza e dessa gota de possibilidade. Parei para pensar sobre o fato e pude reconhecer os ardis daquela bela sombra que me amparou nos braços e soube cobrar em doces tributos as exigências do encanto.
Foi simples para o tempo, mas desesperadamente único para mim. A cidade em que vivo me deu o itinerário certo para arruinar meus receios e ocultar minha impassibilidade. Pude visitar menos aborrecido, de carona com uma nuvem mensageira, os segredos que ela, sim, ela, habitada de sentimentos e intenções escusas, transeunte da vontade, medindo cada caminho, cada metro quadrado, cada corpo, com primor de um laço, os seus olhos de bússola.
O encontro foi por acaso. Uma trombada ao virar a esquina, uma pergunta de que horas são, um com licença no supermercado, um empresta o isqueiro no bar do bairro. Daí não escondemos conversa e fomos empurrando o tédio para os ratos insones. O dia foi se encurtando e a noite perdeu sua quietude, nomeando nossos desejos em terremotos. A audácia prazenteira me tomou conta e matamos, boca a boca, os ecos do abismo. Hoje, após sua saída abrupta - atraso ao trabalho -, sem me deixar promessas, me atentei que ela, depois de tentar em vão ressuscitar outros tempos, somente ela, me encheu a boca de mantimentos, misturando querosene em meu sangue, essas coisas de batizar o coração. Ela, invisível ao partir, visível ao que ficou, esqueceu sobre a cama, estendido no lençol amarfanhado, o amor.

(VFM)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

LÚCIA E LUCAS

Lúcia levanta letárgica, linda, libanesa, longilínea, leve lordose lombar, leva Lucas, louro, levado, lonjura: laboratório! Limpando loucamente lágrima, Lucas linguarudo lamentou ladino: “Lá?!. Lúcia, lacônica, lhana: “Lógico!”. Lucas lambeu laticínio – leite – litro, lambuzou-se. Limpou. Lanchou. Logo laçado, largou ladainhas.
Lúcia ligou lambreta lustrada. Lampejava. Lufava. Ladearam ladeiras, lombadas ladrilhadas, longo labirinto. Letreiro luzia local. Locutora: “Lucas!”. Lépido, lançou-se. Lúcia lia lorotas. Lucas liberado, lânguido, laparoto largava lauda, lembrete lapijado. Lúcia leu letras, linguagem, leiga: (Latim?) ‘Lombriga, lúpus, leucemia!’. "Lascou!". Lúcia legitimou lengalenga laboratorial.
Lúcia, ligeira, largou Lucas, lanchonete: “líquido light: limonada, laranjada!”, lecionou. Lasciva, lembrou, lapso: labuta! Luzes, luminosidade lilás, libertinagem. Local: Lupanar! Lenocínio! Lisonjeira lista, longa, latitudinal, lotada: Lordes, legistas, leprosos, ladrões, lésbicas, lázaros, larápios, lojistas, lavradores... Laia. Lúcia lograva longeva libido. Loba! Leoa! Lúbrica! Lingerie listrada, lycra, luvas, lurex, leque, lantejoulas lucilam; lençol, linho, lã luxuriosa; lubrificantes, lances, loucuras labiais, labareda lingual. Lucrativo labor. Lucra. Locupletava lazer: lojas, loção, lote, latifúndios.
Lúcia, livre, liberta, límpida. Leandro liga. Lacaio. Limusine. Libam licores, lisérgicos. Levitava... Louca, lábil, ludibria, luta, livra-se lesta. Lema: lar! Lobrigava... Lucas longe, lendo livro lírico, literatura. Lucubrava. Lúcia lambiscou legumes, lavou-se lentamente, linfa, lavabo. Lucubrava leito, lona. Lá longe lua lenitiva.
Lúcia, lúcida, levanta lalofóbica. “Lucas! Lucas!”. Lacuna... Lucas localizado lívido, lasso, linear, liquidado, literalmente. Letomaníaco! Limou-se letalmente. Langorosa, lacerada, lúgubre, Lúcia lacrimava lagoa (Lodo? Lama?). Lúcia levantou lápide. Lacrou Lucas: lírios, lótus. Lúcia louva, liturgia. Luto! Lúcia lamuria legenda, legado: “Libertas! Love!”.
“Logo-logo, Lúcia, levo-te”, latiu Lúcifer.

(VFM)

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A PRIMEIRA VEZ QUE ENCONTREI O AMOR


Posso contar como foi esse momento inefável desde o início, apesar de achar que não é dessas histórias mais cativantes e comoventes. Convenhamos, o amor só comove dentro das ordens clericais e farsescas dos livros perdidos nos alfarrábios.
Conhecemo-nos através desses aplicativos: o bar. Em meio ao trançar de gente, bebidas entornadas pela sede dalma e dos corações desérticos e apreensivos. Trocamos alguns sorrisos de tabloides, ao mesmo tempo que os olhos convulsos se faziam constantemente de esguelha para furtar entre si novos olhares de interesse. Amigos em comum fizeram às honras, possibilitando aquela palra trivial etílica. Consegui às duras penas de Sísifo do telefone para marcar assim que possível o grande encontro. Esperei por alguns dias e realizei o primeiro contato, sendo direto que gostaria de vê-la à sós. Recebi um afável "sim", entre risinhos de graça e frágil timidez.
No dia do compromisso inarredável, vesti a melhor camisa, daquelas feitas por escravos egípcios durante as épocas de Quéops, Quefren e Miquerino. Espargi sobre meu corpo imberbe um dos melhores aromas, mijo de lhama de Aguas Calientes, calcei sapatos do couro dos minotauros com peúgas felpudas e coloridas. A braga dos gauleses cobriu minhas pernas raquíticas e lá me fui para a grande Ilíada do meu tempo.
Ao desbravar às ruas dos cronistas de outrora, com o a respiração acelerada ao ritmo da Walquiria de Wagner, suando como um tuareg em seus périplos, coberto por um céu azul límpido com nove listras de nuvens sobre o céu, como a bandeira grega em sua representatividade de nove sílabas expressando "Liberdade ou morte", caminhava como ao encontro da minha Dulcineia. Em júbilo, entusiasmo e ansiedade acreditava que o amor de Príamo e Tisbe inspiraria essa união. No entanto, eis que dos ares uma possível ave agoureira de Edgar Allan Poe me arremessa dos seus fundos os dejetos da sua sanha, escárnio e desprezo, marcando a fogo fétido minha indumentária escolhida a dedo para o amor. Foi como a facada de Brutus, que veio abrupta, assassina, traidora destruir o encanto daquele dia. Imprequei à abóboda celeste os inúmeros palavrões dos bordeis nos quais eu aprendi.
Tombei como Heitor diante da fúria de Aquiles. O que faria? Como me apresentar diante dessa cena horrenda e trágica de um filme de Hitchcock? Estava tudo acabado. Após um tempo inerte e absorto foi que entendi o sentido do fato. O amor é uma grande merda. Assim, saí assobiando um falso minarete até aquele cadafalso para descobrir que nosso encontro foi uma grande cagada.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CONTINHO DE TERROR


Naquela noite, acordamos apreensivos com o irritante barulho de uma torneira aberta respingando insistentemente. Um som seco e tenebroso ecoava. Corremos aos banheiros e à cozinha da casa, mas nada encontramos. Foi quando, ao passarmos pela sala, vimos do quadro da nossa família pingar, de forma espessa, enferma e atormentadora, gotas de sangue.
No dia seguinte, toda a família estava morta, misteriosamente. Os corpos foram encontrados intatos, posturas quietas, cheios de silêncio, sono e moscas. Quando a polícia entrou se defrontou com o gato terminando de lamber sua tigela, os bigodes sujos e vermelhos, olhando a todos satisfeito, com volúpia religiosa.

(VFM)

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CONTOTIDIANO


- É só ele te trocar por outra que você me liga e lembra de mim né?!
- Não sei pra onde correr! Você é minha última esperança!
- Meu ombro não é poleiro pra tuas lágrimas. Já nem me dói mais ouvir tua voz afogada de pesar.
- Me ajude!
- Só se disser que me ama.
- Eu te amo.
- Obrigado. Eu não.
Ele desliga na cara dela. Nos olhos de ambos ficam presas as lágrimas do passado, passarinhos amaldiçoados proibidos de sair ao quintal.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

1 CONTO DE TERROR


Sempre fomos muito religiosos. Íamos à igreja todo fim de semana, em família, e orávamos diariamente. Estranhamos quando voltávamos pra casa e um cheiro de queimado infestava toda casa. Procurávamos, alardeados, pelos cômodos, mas não descobrimos o que era.
Com o passar do tempo, já desconsiderando o cheiro constante, mamãe começou a notar que a sua coleção de crucifixos, rosários e bíblias estavam sumindo aos poucos. Ela nos questionou, castigou e repreendeu. Eu e minha irmã negamos o ato e juramos por nosso senhor Jesus Cristo.
Certo dia, mamãe resolveu fazer faxina no porão de casa para colocar algumas coisas à venda. Tínhamos medo de ir lá pra baixo. Eu e minha irmã comentávamos entre nós que os pesadelos viam de lá, o que nossa mãe esbravejava. Foi quando ela ao adentrar na escuridão do porão, o qual as velharias adormeciam, que ela sentiu ainda mais forte o cheiro de queimado. Eu e minha irmã nos encontrávamos na sala brincando.
De repente, a porta se bate com agressividade. Mamãe lá embaixo ainda. Um calafrio percorreu meu corpo e o crucifixo que ficava pregado no alto da parede caiu. Não ouvimos nenhuma palavra. O silêncio nos assustava enormemente naquele momento.
Mamãe não ligou para a porta e continuou sua busca; a luz se esvaindo, o cheiro forte e o frio eriçando os pelos dos braços. Ela começou a orar, indo cada vez mais ao fundo, vasculhando a escuridão. No canto mais ermo do local, um bafo soprou-lhe a face, o que a fez recuar. Suas orações aumentaram e ela se agarrou a sua fé. Falava alto: "Deus é o todo poderoso e ele está no comando do mundo!", e repetia e repetia. Quando mamãe retirou algumas velhas caixas as quais encobriam uma certa fumaça, que ela pode ver aterrorizada de onde vinha o cheiro. As suas bíblias ardiam, página por página, misteriosamente, ao lado de outros crucifixos de sua coleção. Eis que mamãe recua após apagar as pequenas chamas, orando fortemente, e escuta gritos ensurdecedores. Ela corre, pois pensa que somos nós. Algo lhe agarra a perna. A luz se apaga completamente.
Da sala eu e minha irmã escutamos os gritos. Com falsa coragem, corremos até a porta do porão. Abrimos e gritamos por mamãe. Lá estava ela, se arrastando pela escada, os olhos revirados, nos olhando fixamente com terror, enquanto vomitava os seus crucifixos em borbotões.
(VFM)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

1º de Abril


Mentira tem pernas torneadas e prontas para furtar sorrisos; um joelho bem montado, rotundo, para subir à pique nossos humores, pondo-os em confusão; pelos curtos e claros ou talvez nem tão claros para nossas ações; canelas marcantes a nos dar esperança; coxas vistosas de tirar o juízo e batatas que pulsam, ilusórias, ao seu caminhar galante. Hoje topei com ela em pleno dia do seu aniversário. A língua naquele silêncio oco. Queria dizer palavra a palavra a notícia do meu amor. Mas tudo para ela, na sua pequenez generosa, parecia, assim como ela, Mentira.
E fiquei a mentir toda minha verdade como uma desculpa esfarrapada.

(VFM)

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

CONTOTIDIANO


Ela ouvia naquela semana a mesma música que a fazia lembrar dele. Copinho de requeijão na mão com licor de jabuticaba. Dançava pela sala votiva e leve, sorrisinho fulgente. Os vizinhos passavam horrorizados, negaceando com a cabeça. A vitrolinha repetia insistentemente a Marcha Fúnebre.
(VFM)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

QUARTEIRÃO


Ela resolveu dar uma volta no quarteirão para desanuviar saudades e pisar poças. Não chovia, mas algo nela pingava: talvez um olhar de muxoxo, uma lágrima sem sombrinha, talvez um poema envergonhado, ou alguma inspiração infantil. O caminho não era longo, mas florido de ocasiões. Ela queria pensar e examinar aquela angústia que devorava seu ar mouco. Entre meio-dia e três da tarde ela se demorou, acho. Confesso que não tinha relógio e deduzia pelo tempo das borboletas no ar. Ela parou para ver a lagoa e os reflexos estridentes dos pássaros, que mergulhavam na água. Eu a vi comendo um pensamento secreto na promoção do refresco das árvores. Eu vigiava de longe toda aquela volta com meu olhar anímico e frouxo, possivelmente melado de encantamento.
Ela resolveu dar a volta no quarteirão desde que chegou alguma lembrança no retrato guardado na gaveta; possível também quando o vento abanou as rosas de plástico no jarro da mesa. Ela disse aérea e reticente: "vou dar uma volta no quarteirão". Todos que estavam presentes e pareciam estar esquecidos no velho sofá acompanharam somente a dobradiça relinchando, a voz que pousava já fraca no etéreo e o vestido azul pungente e ridículo, que sumiu inocente. O cachorro a seguiu até a escada feita com seus seis arquivos de passos; o gato permaneceu voltado para o norte, distante do sol e das risadas dos outros meninos. A igreja em frente martelava algum martírio ou salvação com a mão de Deus naquela hora de despedida.
Ela ia em passo de balé, verdadeira e calada na sua existência poética. A sua juventude rebelada se perdia no rosto lívido da vizinhança e no barulho provocativo dos bares. O que tanto lhe afligia o riso? Que indomesticável entardecer se abatia nos teus cabelos? Nesses meus pensamentos difíceis eu a perdi. Corri por todos os lados, perguntando a todo comércio, e nada dela. Sofri de cansaço e de desafinada dor. A sua ausência ainda me cabe relembrar. Eu creio que a amava, acho que por causa do meu jeito piedoso de querer achar sempre um final feliz pra tudo.
Resolvi voltar depois de muito molhar as roseiras com minhas inquietações. Quem sabe ela já tivesse regressado? Caminhei conjugando o tempo e escandindo o número das casas. Quando cheguei ao ponto de partida ela não tinha voltado e a casa não estava mais lá. O que restava era um anúncio de uma famigerada construtora. Estranhei o privilégio de envelhecer.

Ela ainda é moradora das minhas distrações e vive a dar voltas no meu quarteirão. E eu e ela estamos no caminho certo.
(VFM)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

CONTOTIDIANO


- Geraldo! Isso são horas de um homem casado chegar em casa?
Ele na porta, soluçando conhaque, gingando:
- Eu nem fui ainda.
E deu meia-volta e saiu cantarolando.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

CONTINHO


Chegou na zona e pergunta de pronto pra gerente:
- Qual a senha do WiFi?
- Pinto mole não entra.
- Tudo junto?
A gerente com seu sotaque de delícias:
- Tudo grande.

CONTOTIDIANO


Cigarrinho no dedo, fumegante, brasa comprida e vestidinho curto, curtíssimo. Perninha cruzada com linda penugem loira. Chinelinho, tac tac tac, batendo no calcanhar. À espera, encheu o caderninho com o nome dele:
"Desgraçado!"

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

HORTIFRUTI


Naquele dia foi abacaxi atrás de abacaxi! Pôs sua batata pra assar. Contou pros amigos o pepino que rolou:
Depois do chefe-inimigo, mandioca-brava, o deixar às moscas, cozinhando no trabalho à espera do cliente, ele jogou palavras e tomates ao léu e saiu dando uma banana pro superior.
O chefe, vermelho, puto, pimentão, gritou pra ele resolver o problema:
- Não fale abobrinha! Chupa esta manga, porra!!!
O rapaz, maduro, quiabo, achando tudo mamão com açúcar, foi justificando o que fez; apesar de ter enfiado o pé na jaca, colocou a culpa na couve flor do dia anterior.
O chefe (maracujá de gaveta) o despediu botando banca:
- Vai catar coquinho, porra!!!
O rapaz, murcho, fim de feira, saiu, naquele dia, cortando cebolas até em casa.

(VFM)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

DIA DO ESCRITOR


papéizinhos amassados e espalhados pelo quarto. o miúdo em êxtase todo dia. várias vezes. mãozinha infrene. a mãe toda-toda achando que ele ia ser escritor. nos papéizinhos o nome dela colado com sentimentos.
(VFM)

CONTOTIDIANOS


(p/ Walter Ianni)

16 - radinho. música alta. acordes reverberando nos cômodos. patraozinho chega a pouco. "minha putinha rampeira, empina a bundinha, põe de lado a calcinha suada", ela recorda a fala da última vez, serelepe. cedo tinha já friccionado a almofadinha de jambo, molhadinha-molhadinha. alfazema depois e creme de jabuticaba pelo corpinho mimoso. seios durinhos, durinhos. biquinhos estourando florescência. ai, waltinho, ai, waltinho, ria sozinha lavando a louça e os desejos. água fria. tingiu os pelinhos da perna e raspou como ele gosta a vulva linguaruda. patroa fora com as crianças. ai, waltinho, ai, waltinho! ele chega. camisa aberta, uniformizado. pede janta sem beijinho. tapinha na bunda. enfia dois dedinhos e cheira. vai dormir sem conversar. ela desolada. bocetinha pulsando, inchadinha. perdeu a novela e a cena final com seu galã preferido. dorme o radinho choramingando, baixinho, baixinho.
(VFM)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

BRINQUEDO


Na sua sede de brincar, com os olhos amigavelmente no céu e, hora ou outra, travessos na rua maltratada de sol, ele molhava os lábios rachados de desejo e sorria, como primeiro vento, um pedido à mãe:
- Será que hoje posso brincar de caminhão-pipa?
A mãe consentiu no seu extremo vazio e desânimo. A criança pegou o balde e lhe amarrou a linha e, alígero para dar voo àquele céu sem nuvem e se queimar naquela rua nua, foi cortar sua infância ainda com tão poucas escamas. Voltou após um canto de ocaso da mãe com os olhos cheios de água e boiando alguma solução para seu amanhã.
O caminhão-pipa era sua fonte de diversão momentânea. Nele a criança escoava os seus anos. O cerol do seu dia a dia lhe cortava as asas em pequenas felicidades. A criança, por um tempo, criava sua própria história. A mãe não teria mais porquê chorar, ou até choraria diante de pratos limpos e panelas ferventes.
A sede de brincar permaneceria, mas até quando? O caminhão-pipa, assim como a vida, é temporário. A criança é um brinquedo de água que não se repete.

(VFM)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

HISTÓRIA ADVERBIAL EM TEMPOS DE GUERRA


Hoje cedo eles, sucessivamente, declararam que, de repente, o sangue seria, entrementes, a cor da cidade. Afinal, de quando em quando, eles revezavam, doravante a situação, com o tom da fumaça. "Amanhã, às vezes, deixaremos provisoriamente o povo se tingir de luto", asseveraram. Logo depois, ao pôr do sol, o barulho começou, amiúde. 

Desde então, os vivos esperam usar a bandeira branca, que agora é utilizada para cobrir, por fim, os mortos. 

A paz é um sonho colorido e breve. A guerra é a tinta do mundo. Permanece agora e sempre, dentro e fora de nós, longe ou perto, até tarde. A dor é um matiz que nunca se apaga. A paz é jamais.

(VFM)